sexta-feira, 31 de maio de 2013

Episódio 3 - 1, 2, 3 Goodbye

Então, de repente, sem pretender, respirou fundo e pensou que era bom viver. Mesmo que as partidas doessem, e que a cada dia fosse necessário adotar uma nova maneira de agir e de pensar, descobrindo-a inútil no dia seguinte - mesmo assim era bom viver. Não era fácil, nem agradável. Mas ainda assim era bom. Tinha quase certeza. — Autor Desconhecido.

Estúdio Fitz'Burn
Nova York
Demi's POV

 — Vai botar uma roupa. — Minha mãe grunhiu e voltou a colocar o maldito roupão em mim.
 — Eu já disse que não vou, mãe. — Voltei a tirar o roupão, o jogando no chão. Não sei até quando ficaríamos naquilo, mas eu iria insistir.
 Ela me olhou pasma, absorta, e colocou as mãos na cabeça, respirando fundo.
 — Você quer acabar com a minha carreira. — Ela bufou. — Com a minha vida inteira, filha. Fofo, por favor! — Ela puxou o fotógrafo. — Diz pra ela que não pode sair assim como uma ordinária. Isso vai ser um escândalo!
 — Ah, fala sério... — Balancei a cabeça em repreensão. Minha mãe era dramática ao extremo.
 — Vai ser um escândalo, o que nos daria muito dinheiro. — O fotógrafo sorriu. — Acho que devemos fazer as fotos.
 Eu e minha mãe o olhamos ao mesmo tempo, surpresas.
 — Está vendo? — Falei, olhei para minha mãe, que mantinha a boca aberta.
 — Mas o que...
 — Vai ser muito bom! — Falou ele, esperançoso.
 Eu podia ver que minha mãe estava a ponto de enlouquecer. Eu não queria ver aquilo, Sophia Jones podia ser barraqueira ao extremo. Em vez disso, me sentei na grande poltrona branca onde seriam feitas as fotos, sorrindo vitoriosa.
 — Como quer que eu pose? — Perguntei, fazendo algumas coisas com as mãos e cruzando as pernas. — Assim?
 — Isso. Eu quero você bem natural. — Falou ele, preparando a câmera. — Vamos fazer algo com as duas. — Minha mãe o olhou de cara feia. — Vamos! As duas estão belíssimas, vamos fazer algo.
 Minha mãe nos encarou, como se a tivessem colocado contra parede. Ela não tinha saída, se não concordasse as fotos não iriam sair. E era da revista favorita dela, a People. Por fim, ela bufou e se juntou á mim na poltrona branca, dando aquele enorme sorriso dela.
 Fizemos as fotos ficarem chocantes de tão belas. Até eu adorei o que havia feito, e eu detestava esse mundo da fama em que era obrigada a viver. Minha mãe era a cantora mais famosa da América, e eu tinha que acompanhá-la. Apesar de nem sempre, pois eu ainda estudava na minha amada escola perto da Times Square, mas sempre que podia minha mãe me arrastava. Ela quase me obrigou a fazer essas fotos, mas até que não foi tão mal. Não foi tão mal aturá-la por um tempo.

Flórida
Nick's POV

 Tudo que eu conseguia pensar naquele momento era em como minha vida havia dado uma guinada gigantesca. Mas não uma guinada positiva, não mesmo. Meu pai havia morrido e eu havia acabado de perder a única coisa que me restava das lembranças dele. Iríamos perder tudo. Não sobraria mais nada de meu pai, só as lembranças internas, dentro de meu coração. Dentro de minha mente parecia haver um furacão, parecia estar absorvendo tudo de bom que havia dentro de mim.
 Estava sentado em cima da moto dele, olhando sem parar a corrente de prata que ele me deixara. Aquela seria uma das únicas lembranças concretas, que dinheiro nenhum poderia tirar de mim. Nada poderia tirar aquilo de mim. Iria sempre carregá-la comigo. Assim ele também iria me acompanhar sempre em meus momentos.
 — Lembra muito do seu pai, não lembra? — Falou minha mãe, surgindo do meu lado, me tirando de meus pensamentos.
 Não olhei para ela. Tinha que contar de minha decisão. Em meio a tantos pensamentos, e em meio a todo inferno que estava minha vida, tinha que ter uma saída. Uma solução. Tudo isso começou quando meu pai se foi. Antes disso, eu não poderia querer uma vida melhor. Então agora eu tinha que culpar a pessoa que havia feito aquele estrago. Tinha que me vingar dessa pessoa. Ele iria pagar. Iria pagar por ter matado meu pai, e ter feito tudo isso acontecer. Aquilo poderia não trazer meu pai de volta, e nem melhorar a minha situação, mas com certeza vai melhorar a merda que estava meus pensamentos.
 — Vou vender a moto. — Sussurrei, respirando fundo.
 Não olhei para minha mãe, mas sabia que ela havia ficado sem reação.
 — Não, meu filho, você não precisa vender a moto. Com o que recebi pela casa temos dinheiro suficiente para pagar as coisas aos poucos.
 — Eu vou estudar em Nova York, mãe. — Olhei para ela pela primeira vez, e pude ver seus olhos ficando pasmos.
 Era lá que ele estava. Lá era onde ele estava situado, e eu iria atrás dele! Nem que precisasse mentir para minha própria mãe, eu iria atrás daquele desgraçado.
 Minha mãe revirou os olhos, balançando a cabeça.
 — Você insiste nisso. — Ela bufou. — Nick, agora eu não posso pagar uma universidade, mas também não vou poder se você for pra outra cidade!
 — Mãe, com o dinheiro que eu receber pela moto, eu posso conseguir uma bolsa.
 — Filho, entenda, mesmo que você venda a moto, isso não vai solucionar nenhum problema. — Ela suspirou. — Nova York é um lugar perigoso, eu não quero que...
 — Mãe, já falamos sobre isso mil vezes. — Me levantei da moto, pegando em suas mãos. Ela tinha que entender, seria melhor.
 — É por isso, meu filho. Porque já falamos disso mil vezes, e eu não entendo porque insiste em ir embora. — Eu bufei, fechando os olhos. — E já tinha me dito que queria estudar em uma universidade aqui. Porque de repente mudou de ideia e quer ir pra Nova York?
 Abaixei a cabeça e pensei em uma resposta bem convincente. "Ah mãe, por nada, só quero ir me vingar do desgraçado que matou meu pai." Não. Fora de cogitação.
 — Mãe... As pessoas mudam de ideia. — Respondi. — Eu já disse que eu posso conseguir uma bolsa.
 — Mas também pode conseguir aqui. — Ela acariciou meus cabelos. — Na universidade. É muito mais fácil.
 Abaixei a cabeça e respirei fundo. Tudo seria mais fácil se ela entendesse, e eu não precisaria teimar tanto. Mas eu não podia ficar aqui, na Flórida. Não podia ficar e ver nossa vida caindo desse jeito.
 — Então ainda não concorda comigo? — Sussurrei, olhando em seus olhos.
 Ela me olhou com ternura.
 — Pois é... — Ela suspirou. — E tenho certeza de que seu pai também discordaria.
 Eu revirei os olhos e ela entrou de volta para casa. Nossa casa. Antiga casa.

Estúdio Fitz'Burn
Nova York
Demi's POV

 — Mãe, não quer pegar um refrigerante? — Perguntei enquanto já estávamos na 70º foto.
 — Xiu! — Ela fez sinal com os dedos para eu me calar. — Fica quietinha, criança, a estrela aqui sou eu. — E voltou a fazer as poses para a câmera.
 Nós demos uma risadinha e continuamos sorrindo para as fotos. Era muito cansativo, e olha que minha mãe fazia isso pelo menos umas 3 vezes por mês. Vai entender.
 Fomos interrompidas por passos entrando na sala quase correndo. Olhei e vi que era a loira assistente de minha mãe.
 — Desculpe interromper. — Ela chegou ao fotógrafo. — Temos problemas.
 — Eu já disse que quando estou trabalhando, não me interrompa. — Ele disse entre dentes, em um "sussurro".
 — É que... Tem um homem que insiste em entrar.
 — Quem?
 E de repente a porta da sala foi aberta mais uma vez.
 — Eu sou o pai da Demi!
 Minha barriga esfriou e minha garganta ficou quente. Mas o que esse homem estava fazendo aqui?! Senti eu mesma fechando meus punhos, e bufei alto. O que esse inútil estava fazendo?! Só a presença dele já me infectava. Infectava o ambiente. Todos os sorrisos que eu estampava (e minha mãe igualmente) sumiram naquele momento.
 Me levantei da poltrona, ainda com os punhos fechados.
 — Quem doou o espermatozóide, melhor dizendo. — Murmurei, fuzilando-o com os olhos.
 — Demi, deixa isso comigo, ok? — Minha mãe também se levantou. — Cuida dela pra mim, por favor. — Ela falou com a assistente, sem tirar os olhos de meu pai.
 Me sentei novamente na poltrona, mas fiquei completamente absorta no que eles poderiam estar conversando. Eles foram para um canto não muito longe, e eu os segui, me sentando em uma poltrona mais próxima. Abaixei a cabeça para ouvir melhor.
 — Não vou permitir que a minha filha viva essas experiências imorais. — Falou ele, aos sussurros.
 — Imoral aqui é você! Você sumiu pouco depois que a garota nasceu, e nunca mais sequer telefonou. Isso eu não vou permitir, você não tem nenhum direito de estar aqui.
 — A menina tem o meu sobrenome!
 — Ah é?
 — E nunca se esqueça que nunca lhe faltou um centavo.
 — O seu dinheiro nunca foi tocado! Está numa conta, e se quiser eu te devolvo agora mesmo. Mas some daqui.
 Me levantei rapidamente dali e voltei para a poltrona branca. Não queria ouvir mais nada.

Sala da direção
Highland Private School
Nova York

 Depois da algazarra de Selena e suas amigas, o diretor Ethan decidiu chamar o pai da mesma, nada mais justo. Ou talvez isso não poderia ser uma coisa muito boa e feliz para Selena, já que sua viagem corria perigo depois das demonstrações que havia feito no palco. Ethan entrou em sua sala, encontrando Jayden Gomez futucando seu inseparável celular.
 — Senhor Gomez. — Chamou Ethan, tirando Jayden de seus devaneios.
 — Como vai? — Ele o cumprimentou com um sorriso forçado.
 — Sente-se, por favor.
 — Obrigado. — Se sentou.
 Ethan suspirou.
 — Eu quero pedir que o senhor me entenda. Isso foi mais do que uma travessura. Foi vergonhoso e ela fez na frente dos pais de todos os alunos.
 — Entendo, Ethan. Pode dar a ela o castigo que achar melhor e pronto.
 — Bem, foi justamente por isso que mandei chamá-lo. Eu acho que é o senhor que deve chamar a atenção da sua filha.
 — Bom, mas trata-se de uma questão disciplinar dentro do colégio. — Ele deu de ombros.
 Ethan deu um sorriso forçado.
 — Olha, Jayden, sinceramente, eu acho que a sua filha tem que ter um limite.
 Jayden revirou os olhos, parecendo completamente entediado e estressado. Não gostava de ser chamado na escola e "perder o seu tempo", principalmente por causa de Selena.
 — Perdão... Disse alguma coisa inconveniente? — Perguntou Ethan.
 — Não, não, ao contrário. É verdade que eu sou muito bonzinho com ela. Mas como não tem mãe, eu estou sempre viajando...
 — Mas faz isso por ela. Mais cedo ou mais tarde sua filha vai entender.
 — Tem razão. — Assentiu. — O que ela tem que entender agora é que tudo tem limite.

Flórida
Nick's POV

 Aceitaram minha moto na concessionária de bom grado. Não era a moto 0km do ano, não era a melhor, mas também não era de se jogar fora. Eu a amava muito, pois era do meu pai, e ele a havia comprado um pouco antes de morrer. Mas eu aguentava, aquilo iria valer a pena. Recebi o cheque e arranquei a corrente de prata onde eu a prendia na moto. Fui andando a pé para casa, pela primeira vez sentindo uma brisa leve e fresca das ruas da Flórida, que eu não sentia a muito tempo. E que não iria mais sentir por um bom tempo.

Mansão de Sophia Jones
Nova York
Demi's POV

 — Demi, para de usar as minhas coisas, ok? — Minha mãe disse pela 123038º vez ao me ver usando de seus variados batons em frente a seu espelho.
 — Como foi com o velhinho? — Perguntei.
 — Mais respeito, mocinha. É o seu pai. — Falou enquanto tirava seu vestido. Havia acabado de chegar em casa após um jantarzinho com meu "pai".
 Eu ri, completamente irônica.
 — Se ele parece meu avô a culpa é sua, querida, e não minha.
 Minha mãe revirou os olhos. Já estava acostumada com minhas grosserias, então eu também não me importava. Saí da frente do espelho *roupa de Demi* e fui me sentar na gigantesca cama de casal, mexendo na mesinha-de-cabeceira ao lado, procurando os morangos e chocolates que minha mãe escondia.
 — O que ele quer agora? — Perguntei.
 — Agora ele veio dizer que... Eu não sou uma boa mãe.
 Eu ri, achando os chocolates.
 — Bom, nisso ele tem razão!
 — O que?! — Ela me olhou pasma. — Como pode dizer uma coisa assim, Demi?
 — Mãe, deixa de ser tão sensível. — Suspirei. — Olha, por sorte eu sei sobreviver á você, então diz pra esse velho que pode voltar sossegado pra Europa e parar de amolar.
 — É isso que ele vai fazer. Mas impõe certas condições.
 Eu ri.
 — O que ele quer que você faça? — Mordi um dos morangos.
 — A coisa é... É com você, filha. — Ela sussurrou.
 Quase engasguei com o morango que havia acabado de colocar na boca.
 — O que? — Falei meio esganada. — Comigo?! O que esse velho quer comigo?
 — Ele... Tem certos direitos. É seu pai, não é? — Levantei as sobrancelhas, esperando mais argumentos. — Apesar de ter sumido tantos anos, a lei o protege. E ele pode reclamar a sua guarda, Demi.
 — Mãe, se é por isso, não se preocupe. Mandamos os melhores advogados e num dia teremos um dinossauro fora da nossa vida.
 — Não, não quero problemas com advogados. Com essas fotos que vão sair na revista e os juízes que temos, corro o risco de te perder, Demi. Prefiro fazer o que ele pede.
 — E o que ele pede? — Dei de ombros, começando a ficar entediada.
 — Quer que... Você tenha a melhor educação, Demi. — Sua voz ficou mais baixa, e ela abaixou a cabeça. Parecia lutar contra as palavras. Eu dei um riso muito irônico.
 — Rá! Diz pra esse senhor que eu já estou bem educadinha. E sei muito mais sobre a vida do que qualquer menininha da minha idade.
 — Ele fala de outro tipo de educação. — Olhei-a completamente confusa. — Ele quer que eu te matricule num internato.
 — O que?!
 Meus olhos queimaram. Minha cabeça formigou. O que ele está pensando, afinal? O que era aquilo?
 — É brincadeira, não é?!
 Minha mãe negou em resposta.

Episódio 2 - A Dream Is A Wish Your Heart Makes

Algumas pessoas pensam que estão sempre certas, outras são quietas e irritadas, outras parecem tão bem, por dentro elas talvez se sintam tristes e erradas. — The Strokes.
Flórida
Nick's POV

 Passado algum tempo, nós dois deitamos na cama, apenas conversando sobre assuntos aleatórios. Conversar com ela é muito bom, pois nós nos entedíamos. Ela me contava sobre a escola, e também tinha uma dor enorme de deixar a nossa casa. Mas eu tentava afastar esses pensamentos, ela é só uma criança.
 A porta se abriu, e dali vimos o sorriso que minha mãe deu ao nos ver. Nos sentamos na cama, e ela veio até nós.
 — Estavam aqui, não é? — Ela sorriu.
 — Como foi? — Perguntei, com expectativa.
 Percebi que seu sorriso havia sumido no momento em que eu havia acabado de perguntar. Abaixando a cabeça, ela deu um sorriso forçado.
 — Bem. — Respondeu com a voz embargada. — A casa já está vendida.
 — Am... Que bom. — Não, não estava nada bom. — Assim podemos pagar todas as nossas dívidas.
 Talvez eu tenha piorado o psicológico dela, porque nada estava bem. Estávamos saindo de nossa casa, a casa que eu havia crescido, que já fazia parte de minha irmã também, a casa que meus pais passaram seus melhores momentos... A casa tinha ELE, e agora ela estava escapando entre nossos dedos assim. Não, aquilo não podia ter um lado positivo.
 Ela se sentou entre eu e minha irmã na cama, e já estava vendo seus olhos meio marejados. Ela suspirou:
 — É que essa casa aqui... Me traz tantas lembranças do pai de vocês que a comprou. — Ela acariciou os nossos rostos. — Tão cheio de sonhos... E agora não acredito que tivemos que vender quase tudo. — Suas mãos foram para o rosto, e agora ela começara a soluçar. Olhei para a baixinha e ela parecia não estar entendendo muita coisa, mas pude ver a tristeza em seus olhos.
 Abracei minha mãe com toda força que pude. Esperava que o carinho e afeto que emanava de mim naquele momento pudesse passar para ela. Sabia que era um momento difícil, nada era fácil naquele momento. Eu podia ver e sentir a dor dela, porque era a mesma que a minha.

Salão
Highland Private School
Nova York
Selena's POV

 Coreografia pronta e cenário pronto. Tudo estava pronto. As meninas saltitavam animadas para entrar, não viam a hora de aparecerem com aquelas saias mínimas e blusinhas sexys. Acredito que todos na platéia só estavam esperando isso. Tudo estava perfeito, tudo iria dar certo, exceto por uma coisa...
 Fui olhar para fora, para o palco, e via que o salão estava lotado. Havia uma faladeira danada uns entre outros, e eu não conseguia entender muito bem o que estava acontecendo. Em um canto vi o diretor e a secretária conversando, e em seguida a mesma foi para o palco, ajeitando o microfone para começar a faladeira. Meus vagavam incansavelmente pela plateia, procurando uma única pessoa. Onde ele estava? Prometera que viria, mas onde ele estava?!
 — Bom dia professores, alunos e pais de alunos. — Começou a secretária, dando seu formal sorriso que até parecia verdadeiro. — Esta é uma ocasião muito especial, porque nós temos a festa de formatura do nosso querido Highland Private School. É uma honra para mim apresentar o nosso senhor diretor, o professor Ethan Williams. Aplausos, por favor.
 As palmas ecoaram enquanto o diretor entrava no palco, e a secretária tomava seu lugar ao seu lado. Era um homem com uma aparência meio jovial, mas nem tanto assim. Sua mente era horrível, e percebia-se logo de cara. Ele tomou seu lugar no púbito e deu um enorme sorriso.
 — Obrigado, obrigado. Muito obrigado. Antes de começar, eu quero dar as boas vindas, porque temos o orgulho de contar com a presença do senhor secretário Collins. Bem vindo, secretário. — Ethan apontou para o pai de Joe na platéia, e mais uma vez as palmas ecoaram. Eu apenas revirei os olhos com isso. Não é de hoje que Ethan baba o ovo da família Collins. Ele continuou: — Senhores professores, familiares e amigos, alunos... Um novo ciclo escolar chega ao fim... — Pelo canto do olho, pude ver a filha do diretor, sentada no meio da platéia, olhar com desprezo para o pai em cima do palco e colocar seus inseparáveis fones de ouvidos e abaixar a cabeça, meio revoltada. A garota ao seu lado a cutucou e tentou tirar seus fones, mas foi em vão. — ... Do Highland Private School. E aqui encerramos satisfatoriamente outro capítulo mais da história da nossa escola, a serviço da comunidade. — Mais palmas.
 Meus olhos ecoaram novamente. Eu não o encontrava. Que droga, porque eu não o encontrava? Ele me prometeu.
 — O que está fazendo aqui? — Isabella me cutucou, chegando ao meu lado. — Vão te ver!
 — Eu ainda não encontrei o meu pai. — Respondi, quase sussurrando.
 — Ele ainda não deve ter chegado.
 — Não. E eu não vou começar sem ele.
 — Amiga, ele pode ter se atrasado. — Ela suspirou. — Só isso.
 — Isabella, ele me disse que não ia faltar! — Engoli o choro o máximo que eu pude. — Ele não pode faltar hoje, Isabella...
 — Selena, não fica assim! — Ouvi outra voz atrás de mim, de uma outra garota de nosso grupo. Não me virei. — O motorista deve vir. Não é sempre ele que vem e nunca o seu pai?
 Rangi os dentes.
 — Garota, porque você não se mete na sua vida?! — Gritei, cerrando os punhos para não fazer merda.
 — Falei mentira? — Ela levantou as sobrancelhas.
 Balancei a cabeça e voltei a olhar para o púbito, enquanto o diretor Ethan ainda falava.
 — As melhores famílias, os melhores nomes do nosso amado país, aproximam o nosso templo do saber aos seus filhos. — Ele sorriu, totalmente orgulhoso. — Confiando que faremos dele homens e mulheres de bem. Pessoas importantes para toda a sociedade...
 Meu coração disparou ao olhar para a entrada. Uma pessoa nada estranha vinha entrando por ela, e se sentando em uma das cadeiras do corredor. Um alívio e ao mesmo tempo uma tristeza profunda. Não era o meu pai, e sim nosso motorista. Uma fúria tremenda subiu em meu coração. Ele realmente mandou o nosso motorista, e nem se deu ao trabalho de usar as pernas e vir! Senti minha garganta queimar, e meus olhos também.
 — Selena, não fica assim por causa dessa idiota. — Falou Isabella.
 — Não. — Balancei a cabeça, me virando para ela. — Não, Isabella. Quem tá me deixando assim é o meu pai. Mas se é isso que ele quer, ele vai me pagar. — Olhei para o motorista e para Isabella de novo. — Eu volto, já já.
 — Aonde você vai? — Isabella murmurou, me segurando antes que eu saísse.
 — Eu vou me arrumar.
 — Mas você já está arrumada!
 — Ainda não. Mudança de planos.
 Soltei-me de Isabella e segui para o camarim, ainda com muita raiva.

Estúdio Fitz'Burn
Nova York
Demi's POV

 Cheguei correndo ao estúdio, ainda com o roupão. Eu desconfiava que a assistente de minha mãe contaria o que eu fiz, mas na hora eu não me preocupava com isso. Não entrei de imediato, pois ela ainda podia estar se aprontando para fazer as fotos. Eu suspirei e fiquei tranquila que todos estavam dentro do estúdio. Olhei pela fresta da porta, e minha mãe estava sentada no sofá branco, já com seu bíquini sexy e uma multidão em cima da mesma, passando maquiagem. Seu salto de 1 metro já estava posto em seus pés e ela sorria se olhando no espelho. Ah, por favor! É minha mãe mesmo?
 — Um pouco mais de pó aqui, por favor. — Ela falou com um de seus maquiadores, apontando para seu ombro esquerdo. A mulher logo a obedeceu.
 — Você está linda, Sophia. Está maravilhosa. — Disse o fotógrafo enquanto sorria para ela.
 — Eu devia tomar um pouquinho mais de sol, não acha?
 — Não, não se preocupe com isso. Relaxa que eu cuido do resto.
 Ouviram-se gritos vindo de lá de baixo. Não posso esquecer de constar que foi uma missão quase impossível de chegar aqui, já que a rua está interditada por tantos fãs enlouquecidos lá embaixo. Quase tive que me disfarçar de power-ranger para conseguir entrar, sem exageros. De repente ouvi passos vindo para a porta da sala de fotografias, e rapidamente corri para a primeira pilastra que encontrei. Olhei pelo canto do olho e vi a assistente entrando rapidamente na sala, com uma garrafa de água em suas mãos. Ela entrou rápido e eu suspirei aliviada por não ter me visto. Com certeza estava me procurando até agora. Corri novamente para frente da porta e continuei olhando pela fresta.
 — Ah, que bom que chegou! — Disse minha mãe á assistente. — Me dá essa água! — Disse pegando a água.
 — Está todo mundo lá fora! — Disse a moça, com os olhos brilhando. — Você sabe, câmeras, fotógrafos, repórteres, fãs... Tudo perfeito, amiga.
 — E está tudo bem? — A assistente assentiu em resposta.
 Revirei os olhos. Eu estranhei minha mãe não ter colocado o FBI atrás de mim até agora. Eu já devia estar atrasada, a ponto de ela achar que eu havia sido sequestrada... Ou sequestrado alguém.
 — E sabe pra quê isso? Porque ser a artista mais importante do país tem o seu preço. — Falou novamente o fotógrafo.
 — Ah, fofo, você é um amor de pessoa. — Minha mãe sorriu. Aquele sorriso bem doce que me dava enjoô.
 — E sabe do que mais? A ideia de ter a sua filha nas fotos pra mim é sensacional. Vai ser um sucesso essa revista.
 Ah, até que enfim tocaram no meu nome!
 — Ok, mas cuidado com a Demi, porque ela é uma menina. — O sorriso de minha mãe sumiu ao falar de mim.
 — Não se preocupe, eu vou cuidar dela como se fosse minha própria filha.
 — É bom, porque senão eu acabo com a sua raça!
 — Eu juro, você vai ver. — Ele levantou as mãos, rendido.
 — A propósito, cadê ela? Está demorando! — Minha mãe "acordou".
 A cara da assistente havia mudado. Ela sabia muito bem o que eu tinha feito, e não queria contar de jeito nenhum. Sua cara vacilava, e ela olhou para baixo.
 — Ér... Acho que teve um probleminha com as roupas.
 — Com as roupas? — Minha mãe juntou as sobrancelhas.
 Hora de entrar em cena!
 Bufei e entrei na sala, fazendo todos me olharem. Eu ainda estava com o roupão rosa me envolvendo, e dei um sorriso venenoso. A assistente me olhou com desaprovação, e minha mãe se levantou louca do sofá.
 — Demi, minha filha! — Ela me apertou em seu abraço de urso, não se importando se sua maquiagem e seu glitter saíriam. — O que aconteceu com a roupa?
 — Ups! Eu doei para os ciganos na rua. — Dei um sorriso inocente.
 — Como assim doou? — Pude ver seus olhos se arregalando de surpresa. — É tudo versáti!
 — Ah, eles que usem aquilo. Porque eu não vou andar fantasiada.
 — Como fantasiada?
 — Além disso, eu botei outra coisa!
 — Que coisa?
 Desamarrei meu roupão, com um sorriso vitorioso. Tirei-o, e antes de o mesmo cair no chão, minha mãe já gritava de horror. Era uma arte no corpo, uma roupa desenhada, e devemos dizer que foi bem sexy.
 — DEMI, PELO AMOR DE DEUS, CUBRA-SE! — Ela gritou, pegando o roupão no chão e me cobrindo novamente. — Virem todos para lá! Eu proíbo você de posar assim, vai trocar de roupa agora!
 — Calma! Eu já ouvi, está bem?
 — Que absurdo...
 — Quer parar de falar comigo nesse tom de desesperada? Não faz sentido ficar toda nervosinha! — Bufei.
 — O que tem o tom a ver com isso, Demi? Para de fazer pirraça de menina idiota e vai trocar de roupa agora! Vai logo!
 — Mãe, chega! — Gritei, parando seus braços. — Eu me visto como eu quiser, está bem?
 Ela me olhou em silêncio por alguns segundos, talvez se perguntando de que mundo eu era.
 — Ah é? — Ela levantou as sobrancelhas. — Sou sua mãe, Demi, eu sei o que é conveniente.
 — Ah é, claro! Você vai sair linda, quase peladinha, e quer que eu saia vestida como uma menina recém saída do jardim de infância.
 — Você vai como uma menina. Linda, mas como uma menina. Vai trocar de roupa!
 — Menina é a vovózinha, ouviu?! — Tirei meu roupão com força, batendo-o no chão.
 Ela bufou, colocando as mãos na cabeça e fechando os olhos, tentando se acalmar.
 — Demi, meu amor, por favor, minha filha...
 — Minha filha nada! — Interrompi. — Vai ser assim ou nada. Decide, mamãe.

Salão
Highland Private School
Nova York
Selena's POV

 Saí do camarim e cheguei correndo até onde todas as outras garotas estavam reunidas. Cheguei a tempo de ouvir a secretária anunciar no púbito a nossa apresentação:
 — Agora, nossas lindas alunas que entram para o 4º ano, vão nos provilegiar com uma bela coreografia, dirigida pela aluna Selena Gomez. Aplausos, por favor.
 As palmas ecoaram, mas eu ainda não havia terminado. Me virei para ajeitar o CD que trazia em minhas mãos e já podia escutar as garotas reclamando de minha falta. Ao terminar, corri para o meio delas, que me olharam como se eu fosse muito retardada.
 — Onde você estava? — Isabella rangeu os dentes.
 — O meu pai já chegou? — Ignorei a pergunta dela. Ela suspirou.
 — Não, ainda não. Fiquei aqui olhando e ainda não vi.
 — Tudo bem. — Balancei a cabeça. Eu ainda tinha esperanças. — Olha só, quando eu der o sinal, você tira o CD e coloca esse. — Dei pra ela o CD que trazia em minhas mãos.
 Ela me olhou confusa.
 — O que é isso?
 — Quando eu avisar, faça o que eu mandei. Rápido, vai pro seu lugar!
 Isabella murmurou e foi para o seu lugar. Posicionei as garotas e entramos.
 A música que escolhemos foi uma música leve, algo como Run The World. Todas nós usavámos a mesma roupa, e eu já pude perceber os garotos já levantando os olhos para nós na plateia. Começamos a dançar, uma dança leve, ensaiada muito bem, e todos estavam satisfeitos, pelo que eu pude notar. Meu motorista batia palmas e sorria, o que me deixou feliz por alguns segundos, mas eu não me esquecia do que realmente estava fazendo ali.
  Logo quando a música já estava acabando, eu parei de dançar subitamente. As garota me olharam confusas, mas continuaram dançando. Fui para a frente do palco, olhando para Isabella, falando-a para trocar o CD. Isabella parou a música, fazendo todos olharem confusos e cochichos começaram a ecoar pelo salão. Logo começou a outra, que na verdade era uma música do Kanye West que eu escolhi, daquelas bem proibidas. Todos me olhavam, não estavam entendendo nada.
  Ao começo das primeiras notas, agaixei e me levantei, fazendo todos gritarem. Comecei a rebolar de todos os jeitos que eu sabia, e eu vi algumas garotas e garotos se levantando, me chamando de gostosa ou coisa do tipo. Eu ri e continuei a dançar. Tirei minha mini-blusa e depois meu short. Eu estava completamente sensual e pude ver o motorista começar a ficar pirado.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Episódio 1 - Afraid

Porque eu gosto de quem presta atenção em mim. De quem procura novidade mesmo me conhecendo do avesso. De quem não desiste de me descobrir. De quem não se cansa da rotina. De quem se entrega. Sempre. — Clarissa Corrêa.

Highland Private School - Nova York - Selena's POV

 Desci as escadas para o salão principal. Havia uma aglomeração intensa de alunos naquela hora, pessoas com suas malas e tantos outros objetos rondavam os arredores, e é claro, não posso deixar de notar que todos estavam devidamente acompanhados de seus pais. Eu suspirei e olhei novamente para o enorme portão de entrada. Como sempre, meu pai ainda não havia chegado.

 O colégio Highland Private School é o melhor internato do país, situado na cidade de Nova York. Naquele instante, os alunos estavam se preparando a todo fervor para entrarem de férias, já que começara o ano letivo e ainda tínhamos algumas semanas longe de trabalhos e provas. A alegria era grande, claro, e queríamos curtir muito naquelas férias. Eu estava louca pra sair daqui, e já planejava uma viagem para o Caribe com papai. Como hoje seria mais uma festinha de "boas vindas" organizada pelo diretor, as meninas do 4º ano — o qual era o meu ano — organizaram uma coreografia, onde eu tive a ideia e preparei tudo, do meu jeito. Queria muito mostrar isso a meu pai, mas ele não chegava. Não aparecia. Eu já estava posta dentro de meu uniforme, olhando incansavelmente para a maldita porta de entrada, onde ele não surgia.

 — Anda, vem rápido! — Senti alguém pegar em meu braço, e me puxar para a escada. Olhei e vi Isabella.

 — Não, não, espera, Isabella! — Soltei-me dela, ficando no mesmo lugar em que estava. — O meu pai ainda não chegou, e eu quero que pegue o melhor lugar.

 — Eu não estou vendo ele. — Ela rolou os olhos pelo salão.

 — Eu também não, mas vou esperar aqui.

 — Ah, vamos logo...

 — E aí, Selena! — Me virei para ver quem me chamava. Eu não o conhecia, na verdade. Era um garoto, baixo e cabelos escuros, com sorrisos de covinha, que trazia consigo um enorme girassol.

 — Oi. — Dei um sorriso simpático, enquanto Isabella batia o pé atrás de mim, impaciente.

 — O que vai fazer depois da festa de formatura? — Perguntou ele, sorrindo de orelha a orelha.

 — Ah, eu vou sair com os meus amigos. — Dei de ombros.

 Ele pareceu decepcionado por um instante, mas logo retomou o sorriso, com mais confiança.

 — Hmm. E algum dia vai sair comigo? — Perguntou, sorrindo.

 Isabella riu atrás de mim. Soltei um risinho, mas nada extravagante.

 — Eu vou! — Falei. — Um dia eu vou sair com você. Aliás, porque você não me liga nas férias? Ok?

 — T-ta. — Ele sorriu, nervoso, e em seguida deu a flor em minhas mãos.

 — Hm, obrigada. — Eu sorri. Em um impulso, senti ele avançando para mim e me dando um beijo rápido na bochecha.

 — T-tchau. — Ele gaguejou, indo até as escadas, cambaleando um pouco.

 Me virei e vi Isabella olhar chocada para mim, ainda rindo pelo pequeno "tombo" do garoto nas escadas.

 — Coitadinho! — Falou ela. — Porque você pediu pra ele te ligar nas férias se você vai viajar?

 — Foi por isso! Pra ele me ligar quando eu não estiver! — Nós duas rimos por alguns instantes, imaginando a tal cena.

 — Agora, venha! — Isabella me puxou até as escadas.

 — Não, espera! Espera o meu pai! — Gritei, mas de nada adiantou, já me via sendo puxada por Isabella.

Flórida - Nick's POV

 Acordei, peguei a moto da garagem e fui. Fui sentir o vento na cara, fui sentir  a brisa, a maresia, fui colocar os pensamentos — e os sentimentos — no devido lugar. Fui esfriar a cabeça, que estava precisando. Fui simplesmente viver. Minha cabeça anda cheia de muitos problemas, e minha vida ultimamente não está prestando para nada, e muito menos para alguém.

 Parei no lugar de sempre. Ás milhas do mar, á enorme pedra, aquela árvore na areia onde eu considero um paraíso. Sentei ali embaixo, pegando a filmadora de meu bolso, e coloquei no vídeo de sempre. Meu pai.

 Moro na Flórida desde que nasci. Isso aqui pra mim era um paraíso, meu lugar favorito no mundo. Essa cidade aglomerava meus sonhos e meus objetivos, eu tinha tudo que eu precisava. Minha mãe, minha irmã... Meu pai. E de repente eu odeio esse lugar tanto quanto odeio a minha vida.

 Desde que meu pai morreu, isso aqui não é mais a mesma coisa. Acho que nunca mais vai ser. Ele se foi, e a beleza do lugar também. Aqui, onde eu estava agora, era o único lugar onde eu ainda não odiava o amava. Aqui, de algum jeito, eu poderia pensar nele e quem sabe falar com ele. Ali mesmo. Sei que a saudade era uma merda e era horrível, mas eu tinha que aguentar. Precisava. Precisava pensar que a vida seguia em frente.

 Estava reproduzindo o mesmo vídeo de sempre da pequena filmadora. Nele via-se um homem; alto, forte e de leves cabelos encaracolados e desgrenhados, com uma barba mal-feita e roupa largadas. Meu pai. E também havia um garoto de 8 anos, parecido com o pai, correndo solto pelo galpão velho de onde eles brincavam naquela hora. Sorrisos estampavam nossos rostos, enquanto ele corria atrás de mim, e eu pulava de madeira em madeira no chão. Ele me dava beijos no rosto, que eram doces e que tinham tanta ternura. O que eu mais queria era reviver todos esses momentos novamente, mesmo sabendo que era impossível. "Ele se foi", repetia a mim mesmo em pensamento. Não há mais jeito. Nesse momento, só posso sonhar e querer ele aqui do meu lado.

Highland Private School - Nova York - Joe's POV

 Mais e mais pessoas esbarravam em mim no grande salão enquanto eu me encaminhava até meus pais na entrada, de má vontade. As líderes de torcida sorriam e piscavam pra mim no decorrer do caminho, e eu apenas sorria. Já havia pegado quase todas elas, e nesse ano não seria diferente. Dei mais alguns passos e bufei quando os vi parados na porta. Meu pai, o deputado, o secretário, fumando seu inseparável cigarro e minha mãe, a "donzela", a maior perua banhada em loja de Nova York. Não querendo julgá-los, eu os amo, mas não os suporto muitas vezes.

 — Porque? Ir pra Londres agora? — Eu disse depois de alguns minutos de conversa. Minutos suficientes para uma nova discussão.

 — Joe! — Repreendeu minha mãe. — Por favor. Você vai poder ver seus irmãos, vai ficar com eles.

 — Mãe, disseram que íamos á praia.

 — Houve uma mudança de planos. — Meu pai ergueu as sobrancelhas, dando uma tragada forte no cigarro. — Agora nós vamos para a Europa, Joe.

 — Eu prometi ao Jacob que iria comigo. — Apontei para Jacob Johnson ao meu lado, que havia chegado uns minutos antes da conversa. — Não foi? — Cerrei os dentes, encarando-o, esperando que ele sustentasse a mentira.

 Jacob era meu melhor amigo desde sempre. Meu pai, um dos homens mais ricos desse país, tentou se livrar de mim me colocando nesse manicômio de escola, mas para azar dele — e do meu, claro — ele ainda é obrigado a pisar aqui muitas vezes ao ano para ver como está o filhinho. Na verdade, eu odeio essa escola. Você simplesmente não pode fazer nada, as pessoas são desprezíveis e suas cabeças estão sempre pensando em algum tipo de emprego ou faculdade. Ainda é meu penúltimo ano, o que é horrível, pois não aguento mais essas pessoas.

 Pela minha grande vontade de querer "viver" aqui dentro, eu apronto algumas em determinados momentos, o que causa a ira de meu pai, e Jacob sempre está comigo em tudo. Pelas notas dele, Joe Walker é considerado o "galã" da escola, e é claro que ele e Selena Gomez têm que ficar juntos. Bobagem. Não vou me prender á ninguém.

 Olhei para Jacob e dava pra ver em seus olhos que ele não iria contribuir com a minha mentira.

 — Não, não. — Ele balançou a cabeça, olhando para meus pais. — Eu posso ir pra praia com os meus pais, não tem problema.

 — Tá bom, mas eu me importo! — Bufei, me virando pra ele. — Vai ser uma chatice ficar nesse colégio.

 Para esclarecer: eu não iria viajar para a praia coisa nenhuma! Pelo contrário, iria passar todas as minhas férias trancado em alguma casa na Europa, para minha grande felicidade. Como eu disse, iríamos a praia, eu e meus pais — pela primeira vez ele tiraria um tempo de folga —, mas é apaixonado pela política e consegue fugir de qualquer compromisso que inclua sua família. E agora tenho que ser obrigado a participar de qualquer coisa que ele quiser, incluindo a política.

 — Joe, isso não está em discussão. — Falou ele, em tom firme e sempre frio. — Você vai conosco e está acabado.

 — O embaixador quer uma reunião com o seu pai. — Completou minha mãe.

 — Ué, então vai sozinho! Você tem que estragar as minhas férias? — Cerrei os dentes para meu pai.

 — Olha, já chega! — Ele soltou um pouco de fumaça do cigarro, bufando. — Eu vim ver você, apesar da campanha eleitoral. E não vou perder o meu tempo com as suas pirraças, entendeu?

 Eu bufei, fechando os punhos, querendo dar um soco em alguma coisa. O pior de tudo era saber que eu não podia discutir com ele. Eu não podia enfrentá-lo, e ele nunca quer saber o que eu quero, do que eu gosto, do que eu prefiro. Ele nunca quer saber nada disso, o que me dá certa revolta. Revirei os olhos e suspirei, e rapidamente senti braços me abraçando por trás. Me virei e vi a garota loira sorrindo. Jacob me olhou com sinal para irmos para outro lugar, e ela me puxou rapidamente, e saí de perto de meus pais, para meu alívio. Eles nem perceberam, e também não estavam nem aí.

    Flórida - Nick's POV

 Cheguei em casa, depois de toda aquela cachoeira de lembranças. De início, não vi ninguém, mas na hora não liguei e fui direto para meu quarto. Ainda com a câmera na mão, revirei minhas gavetas, pegando mais fitas com meu pai, colocando-as em cima da cama. Haviam dias em que eu mergulhava de cabeça nele, totalmente, e eu estava assim hoje. Deitei em minha cama, totalmente vidrado nos vídeos. Em minha cabeça se passavam mil coisas. Mal ouvi quando a porta de meu quarto foi aberta e lá estava minha irmã de 7 anos, com seus olhos inocentes e seu sorriso meio banguela.

 Eu me levantei rapidamente, me sentando enquanto ela corria para meu colo.

 — Oi, linda. — Sorri fraco, beijando seu rosto.

 — Porque pegou todas essas fitas? — Perguntou, apontando para as fitas na cama.

 — Porque essas fitas tem imagens do papai. Lembra? — Ela sorriu, pegando uma delas.

 — Sabia que você se parece muito com ele?

 Eu sorri, passando a mão em seus pequenos cachos escuros.

 — É, eu sei.

 Ela baixou os olhos, parecendo pensar nas próximas palavras que iria usar.

 — Ás vezes, quando está dormindo, venho aqui no seu quarto e fico um tempão te olhando. — Falou ela. Juntei as sobrancelhas, confuso.

 — Ah é? — Soltei um risinho. — E pra quê?

 — É como se o papai tivesse voltado e estivesse dormindo.

 Meu sorriso desapareceu, e eu forcei os olhos, fechando-os com força, várias coisas martelando em minha cabeça naquela hora. Eu gostava de lembrar do meu pai, claro que eu gostava. Mas quando eu estivesse sozinho, perdido em minhas próprias lembranças, em meus próprios choros e angústias. Ninguém precisava saber. Mas eu não podia negar que doía muito falar dele com outra pessoa, principalmente com minha irmã, que ainda não aceitava o fato, assim como eu.

 — O papai não está mais com a gente, baixinha. — Sussurrei, olhando em seus olhos.

 — Mas eu sinto falta dele.

 — Eu sei, mas... — Bufei, tentando pensar no que dizer. — Mas o papai morreu e já faz muito tempo.

 — Porque ele morreu? — Ela juntou as sobrancelhas, realmente confusa.

 — Não, não, claro que não. — Suspirei. — O problema é que um senhor... Muito, muito mal jogou sujo.

 — Foi por isso que ficamos sem nada... E sem o papai?

 — É, foi por culpa desse homem. — Revirei os olhos, repreendendo toda a raiva que queria consumir o meu corpo naquela hora. Todo ódio eu mandava sair. Naquele momento eu não podia ficar com raiva daquele, não podia simplesmente descontar e tudo para ela naquele momento. Eu não me permitia.

 — Você conhece esse senhor? — Perguntou ela. "Não, mas ainda vou matá-lo!", pensei em responder isso.

 — Ainda não. — Eu disse, dando um sorriso fraco. Em seguida, ela me abraçou, se aninhando em meu colo.

 Naquele momento, cerrei os dentes. Quando paro para pensar naquele homem, a fúria em mim não acha tréguas. Ele simplesmente vai me pagar.  Vai pagar por tudo que fez á mim e a minha família, por tudo de mal que fez ao meu pai! Ele não perde por esperar.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Episódio 3 - 1, 2, 3 Goodbye

Então, de repente, sem pretender, respirou fundo e pensou que era bom viver. Mesmo que as partidas doessem, e que a cada dia fosse necessário adotar uma nova maneira de agir e de pensar, descobrindo-a inútil no dia seguinte - mesmo assim era bom viver. Não era fácil, nem agradável. Mas ainda assim era bom. Tinha quase certeza. — Autor Desconhecido.

Estúdio Fitz'Burn
Nova York
Demi's POV

 — Vai botar uma roupa. — Minha mãe grunhiu e voltou a colocar o maldito roupão em mim.
 — Eu já disse que não vou, mãe. — Voltei a tirar o roupão, o jogando no chão. Não sei até quando ficaríamos naquilo, mas eu iria insistir.
 Ela me olhou pasma, absorta, e colocou as mãos na cabeça, respirando fundo.
 — Você quer acabar com a minha carreira. — Ela bufou. — Com a minha vida inteira, filha. Fofo, por favor! — Ela puxou o fotógrafo. — Diz pra ela que não pode sair assim como uma ordinária. Isso vai ser um escândalo!
 — Ah, fala sério... — Balancei a cabeça em repreensão. Minha mãe era dramática ao extremo.
 — Vai ser um escândalo, o que nos daria muito dinheiro. — O fotógrafo sorriu. — Acho que devemos fazer as fotos.
 Eu e minha mãe o olhamos ao mesmo tempo, surpresas.
 — Está vendo? — Falei, olhei para minha mãe, que mantinha a boca aberta.
 — Mas o que...
 — Vai ser muito bom! — Falou ele, esperançoso.
 Eu podia ver que minha mãe estava a ponto de enlouquecer. Eu não queria ver aquilo, Sophia Jones podia ser barraqueira ao extremo. Em vez disso, me sentei na grande poltrona branca onde seriam feitas as fotos, sorrindo vitoriosa.
 — Como quer que eu pose? — Perguntei, fazendo algumas coisas com as mãos e cruzando as pernas. — Assim?
 — Isso. Eu quero você bem natural. — Falou ele, preparando a câmera. — Vamos fazer algo com as duas. — Minha mãe o olhou de cara feia. — Vamos! As duas estão belíssimas, vamos fazer algo.
 Minha mãe nos encarou, como se a tivessem colocado contra parede. Ela não tinha saída, se não concordasse as fotos não iriam sair. E era da revista favorita dela, a People. Por fim, ela bufou e se juntou á mim na poltrona branca, dando aquele enorme sorriso dela.
 Fizemos as fotos ficarem chocantes de tão belas. Até eu adorei o que havia feito, e eu detestava esse mundo da fama em que era obrigada a viver. Minha mãe era a cantora mais famosa da América, e eu tinha que acompanhá-la. Apesar de nem sempre, pois eu ainda estudava na minha amada escola perto da Times Square, mas sempre que podia minha mãe me arrastava. Ela quase me obrigou a fazer essas fotos, mas até que não foi tão mal. Não foi tão mal aturá-la por um tempo.

Flórida
Nick's POV

 Tudo que eu conseguia pensar naquele momento era em como minha vida havia dado uma guinada gigantesca. Mas não uma guinada positiva, não mesmo. Meu pai havia morrido e eu havia acabado de perder a única coisa que me restava das lembranças dele. Iríamos perder tudo. Não sobraria mais nada de meu pai, só as lembranças internas, dentro de meu coração. Dentro de minha mente parecia haver um furacão, parecia estar absorvendo tudo de bom que havia dentro de mim.
 Estava sentado em cima da moto dele, olhando sem parar a corrente de prata que ele me deixara. Aquela seria uma das únicas lembranças concretas, que dinheiro nenhum poderia tirar de mim. Nada poderia tirar aquilo de mim. Iria sempre carregá-la comigo. Assim ele também iria me acompanhar sempre em meus momentos.
 — Lembra muito do seu pai, não lembra? — Falou minha mãe, surgindo do meu lado, me tirando de meus pensamentos.
 Não olhei para ela. Tinha que contar de minha decisão. Em meio a tantos pensamentos, e em meio a todo inferno que estava minha vida, tinha que ter uma saída. Uma solução. Tudo isso começou quando meu pai se foi. Antes disso, eu não poderia querer uma vida melhor. Então agora eu tinha que culpar a pessoa que havia feito aquele estrago. Tinha que me vingar dessa pessoa. Ele iria pagar. Iria pagar por ter matado meu pai, e ter feito tudo isso acontecer. Aquilo poderia não trazer meu pai de volta, e nem melhorar a minha situação, mas com certeza vai melhorar a merda que estava meus pensamentos.
 — Vou vender a moto. — Sussurrei, respirando fundo.
 Não olhei para minha mãe, mas sabia que ela havia ficado sem reação.
 — Não, meu filho, você não precisa vender a moto. Com o que recebi pela casa temos dinheiro suficiente para pagar as coisas aos poucos.
 — Eu vou estudar em Nova York, mãe. — Olhei para ela pela primeira vez, e pude ver seus olhos ficando pasmos.
 Era lá que ele estava. Lá era onde ele estava situado, e eu iria atrás dele! Nem que precisasse mentir para minha própria mãe, eu iria atrás daquele desgraçado.
 Minha mãe revirou os olhos, balançando a cabeça.
 — Você insiste nisso. — Ela bufou. — Nick, agora eu não posso pagar uma universidade, mas também não vou poder se você for pra outra cidade!
 — Mãe, com o dinheiro que eu receber pela moto, eu posso conseguir uma bolsa.
 — Filho, entenda, mesmo que você venda a moto, isso não vai solucionar nenhum problema. — Ela suspirou. — Nova York é um lugar perigoso, eu não quero que...
 — Mãe, já falamos sobre isso mil vezes. — Me levantei da moto, pegando em suas mãos. Ela tinha que entender, seria melhor.
 — É por isso, meu filho. Porque já falamos disso mil vezes, e eu não entendo porque insiste em ir embora. — Eu bufei, fechando os olhos. — E já tinha me dito que queria estudar em uma universidade aqui. Porque de repente mudou de ideia e quer ir pra Nova York?
 Abaixei a cabeça e pensei em uma resposta bem convincente. "Ah mãe, por nada, só quero ir me vingar do desgraçado que matou meu pai." Não. Fora de cogitação.
 — Mãe... As pessoas mudam de ideia. — Respondi. — Eu já disse que eu posso conseguir uma bolsa.
 — Mas também pode conseguir aqui. — Ela acariciou meus cabelos. — Na universidade. É muito mais fácil.
 Abaixei a cabeça e respirei fundo. Tudo seria mais fácil se ela entendesse, e eu não precisaria teimar tanto. Mas eu não podia ficar aqui, na Flórida. Não podia ficar e ver nossa vida caindo desse jeito.
 — Então ainda não concorda comigo? — Sussurrei, olhando em seus olhos.
 Ela me olhou com ternura.
 — Pois é... — Ela suspirou. — E tenho certeza de que seu pai também discordaria.
 Eu revirei os olhos e ela entrou de volta para casa. Nossa casa. Antiga casa.

Estúdio Fitz'Burn
Nova York
Demi's POV

 — Mãe, não quer pegar um refrigerante? — Perguntei enquanto já estávamos na 70º foto.
 — Xiu! — Ela fez sinal com os dedos para eu me calar. — Fica quietinha, criança, a estrela aqui sou eu. — E voltou a fazer as poses para a câmera.
 Nós demos uma risadinha e continuamos sorrindo para as fotos. Era muito cansativo, e olha que minha mãe fazia isso pelo menos umas 3 vezes por mês. Vai entender.
 Fomos interrompidas por passos entrando na sala quase correndo. Olhei e vi que era a loira assistente de minha mãe.
 — Desculpe interromper. — Ela chegou ao fotógrafo. — Temos problemas.
 — Eu já disse que quando estou trabalhando, não me interrompa. — Ele disse entre dentes, em um "sussurro".
 — É que... Tem um homem que insiste em entrar.
 — Quem?
 E de repente a porta da sala foi aberta mais uma vez.
 — Eu sou o pai da Demi!
 Minha barriga esfriou e minha garganta ficou quente. Mas o que esse homem estava fazendo aqui?! Senti eu mesma fechando meus punhos, e bufei alto. O que esse inútil estava fazendo?! Só a presença dele já me infectava. Infectava o ambiente. Todos os sorrisos que eu estampava (e minha mãe igualmente) sumiram naquele momento.
 Me levantei da poltrona, ainda com os punhos fechados.
 — Quem doou o espermatozóide, melhor dizendo. — Murmurei, fuzilando-o com os olhos.
 — Demi, deixa isso comigo, ok? — Minha mãe também se levantou. — Cuida dela pra mim, por favor. — Ela falou com a assistente, sem tirar os olhos de meu pai.
 Me sentei novamente na poltrona, mas fiquei completamente absorta no que eles poderiam estar conversando. Eles foram para um canto não muito longe, e eu os segui, me sentando em uma poltrona mais próxima. Abaixei a cabeça para ouvir melhor.
 — Não vou permitir que a minha filha viva essas experiências imorais. — Falou ele, aos sussurros.
 — Imoral aqui é você! Você sumiu pouco depois que a garota nasceu, e nunca mais sequer telefonou. Isso eu não vou permitir, você não tem nenhum direito de estar aqui.
 — A menina tem o meu sobrenome!
 — Ah é?
 — E nunca se esqueça que nunca lhe faltou um centavo.
 — O seu dinheiro nunca foi tocado! Está numa conta, e se quiser eu te devolvo agora mesmo. Mas some daqui.
 Me levantei rapidamente dali e voltei para a poltrona branca. Não queria ouvir mais nada.

Sala da direção
Highland Private School
Nova York

 Depois da algazarra de Selena e suas amigas, o diretor Ethan decidiu chamar o pai da mesma, nada mais justo. Ou talvez isso não poderia ser uma coisa muito boa e feliz para Selena, já que sua viagem corria perigo depois das demonstrações que havia feito no palco. Ethan entrou em sua sala, encontrando Jayden Gomez futucando seu inseparável celular.
 — Senhor Gomez. — Chamou Ethan, tirando Jayden de seus devaneios.
 — Como vai? — Ele o cumprimentou com um sorriso forçado.
 — Sente-se, por favor.
 — Obrigado. — Se sentou.
 Ethan suspirou.
 — Eu quero pedir que o senhor me entenda. Isso foi mais do que uma travessura. Foi vergonhoso e ela fez na frente dos pais de todos os alunos.
 — Entendo, Ethan. Pode dar a ela o castigo que achar melhor e pronto.
 — Bem, foi justamente por isso que mandei chamá-lo. Eu acho que é o senhor que deve chamar a atenção da sua filha.
 — Bom, mas trata-se de uma questão disciplinar dentro do colégio. — Ele deu de ombros.
 Ethan deu um sorriso forçado.
 — Olha, Jayden, sinceramente, eu acho que a sua filha tem que ter um limite.
 Jayden revirou os olhos, parecendo completamente entediado e estressado. Não gostava de ser chamado na escola e "perder o seu tempo", principalmente por causa de Selena.
 — Perdão... Disse alguma coisa inconveniente? — Perguntou Ethan.
 — Não, não, ao contrário. É verdade que eu sou muito bonzinho com ela. Mas como não tem mãe, eu estou sempre viajando...
 — Mas faz isso por ela. Mais cedo ou mais tarde sua filha vai entender.
 — Tem razão. — Assentiu. — O que ela tem que entender agora é que tudo tem limite.

Flórida
Nick's POV

 Aceitaram minha moto na concessionária de bom grado. Não era a moto 0km do ano, não era a melhor, mas também não era de se jogar fora. Eu a amava muito, pois era do meu pai, e ele a havia comprado um pouco antes de morrer. Mas eu aguentava, aquilo iria valer a pena. Recebi o cheque e arranquei a corrente de prata onde eu a prendia na moto. Fui andando a pé para casa, pela primeira vez sentindo uma brisa leve e fresca das ruas da Flórida, que eu não sentia a muito tempo. E que não iria mais sentir por um bom tempo.

Mansão de Sophia Jones
Nova York
Demi's POV

 — Demi, para de usar as minhas coisas, ok? — Minha mãe disse pela 123038º vez ao me ver usando de seus variados batons em frente a seu espelho.
 — Como foi com o velhinho? — Perguntei.
 — Mais respeito, mocinha. É o seu pai. — Falou enquanto tirava seu vestido. Havia acabado de chegar em casa após um jantarzinho com meu "pai".
 Eu ri, completamente irônica.
 — Se ele parece meu avô a culpa é sua, querida, e não minha.
 Minha mãe revirou os olhos. Já estava acostumada com minhas grosserias, então eu também não me importava. Saí da frente do espelho *roupa de Demi* e fui me sentar na gigantesca cama de casal, mexendo na mesinha-de-cabeceira ao lado, procurando os morangos e chocolates que minha mãe escondia.
 — O que ele quer agora? — Perguntei.
 — Agora ele veio dizer que... Eu não sou uma boa mãe.
 Eu ri, achando os chocolates.
 — Bom, nisso ele tem razão!
 — O que?! — Ela me olhou pasma. — Como pode dizer uma coisa assim, Demi?
 — Mãe, deixa de ser tão sensível. — Suspirei. — Olha, por sorte eu sei sobreviver á você, então diz pra esse velho que pode voltar sossegado pra Europa e parar de amolar.
 — É isso que ele vai fazer. Mas impõe certas condições.
 Eu ri.
 — O que ele quer que você faça? — Mordi um dos morangos.
 — A coisa é... É com você, filha. — Ela sussurrou.
 Quase engasguei com o morango que havia acabado de colocar na boca.
 — O que? — Falei meio esganada. — Comigo?! O que esse velho quer comigo?
 — Ele... Tem certos direitos. É seu pai, não é? — Levantei as sobrancelhas, esperando mais argumentos. — Apesar de ter sumido tantos anos, a lei o protege. E ele pode reclamar a sua guarda, Demi.
 — Mãe, se é por isso, não se preocupe. Mandamos os melhores advogados e num dia teremos um dinossauro fora da nossa vida.
 — Não, não quero problemas com advogados. Com essas fotos que vão sair na revista e os juízes que temos, corro o risco de te perder, Demi. Prefiro fazer o que ele pede.
 — E o que ele pede? — Dei de ombros, começando a ficar entediada.
 — Quer que... Você tenha a melhor educação, Demi. — Sua voz ficou mais baixa, e ela abaixou a cabeça. Parecia lutar contra as palavras. Eu dei um riso muito irônico.
 — Rá! Diz pra esse senhor que eu já estou bem educadinha. E sei muito mais sobre a vida do que qualquer menininha da minha idade.
 — Ele fala de outro tipo de educação. — Olhei-a completamente confusa. — Ele quer que eu te matricule num internato.
 — O que?!
 Meus olhos queimaram. Minha cabeça formigou. O que ele está pensando, afinal? O que era aquilo?
 — É brincadeira, não é?!
 Minha mãe negou em resposta.

Episódio 2 - A Dream Is A Wish Your Heart Makes

Algumas pessoas pensam que estão sempre certas, outras são quietas e irritadas, outras parecem tão bem, por dentro elas talvez se sintam tristes e erradas. — The Strokes.
Flórida
Nick's POV

 Passado algum tempo, nós dois deitamos na cama, apenas conversando sobre assuntos aleatórios. Conversar com ela é muito bom, pois nós nos entedíamos. Ela me contava sobre a escola, e também tinha uma dor enorme de deixar a nossa casa. Mas eu tentava afastar esses pensamentos, ela é só uma criança.
 A porta se abriu, e dali vimos o sorriso que minha mãe deu ao nos ver. Nos sentamos na cama, e ela veio até nós.
 — Estavam aqui, não é? — Ela sorriu.
 — Como foi? — Perguntei, com expectativa.
 Percebi que seu sorriso havia sumido no momento em que eu havia acabado de perguntar. Abaixando a cabeça, ela deu um sorriso forçado.
 — Bem. — Respondeu com a voz embargada. — A casa já está vendida.
 — Am... Que bom. — Não, não estava nada bom. — Assim podemos pagar todas as nossas dívidas.
 Talvez eu tenha piorado o psicológico dela, porque nada estava bem. Estávamos saindo de nossa casa, a casa que eu havia crescido, que já fazia parte de minha irmã também, a casa que meus pais passaram seus melhores momentos... A casa tinha ELE, e agora ela estava escapando entre nossos dedos assim. Não, aquilo não podia ter um lado positivo.
 Ela se sentou entre eu e minha irmã na cama, e já estava vendo seus olhos meio marejados. Ela suspirou:
 — É que essa casa aqui... Me traz tantas lembranças do pai de vocês que a comprou. — Ela acariciou os nossos rostos. — Tão cheio de sonhos... E agora não acredito que tivemos que vender quase tudo. — Suas mãos foram para o rosto, e agora ela começara a soluçar. Olhei para a baixinha e ela parecia não estar entendendo muita coisa, mas pude ver a tristeza em seus olhos.
 Abracei minha mãe com toda força que pude. Esperava que o carinho e afeto que emanava de mim naquele momento pudesse passar para ela. Sabia que era um momento difícil, nada era fácil naquele momento. Eu podia ver e sentir a dor dela, porque era a mesma que a minha.

Salão
Highland Private School
Nova York
Selena's POV

 Coreografia pronta e cenário pronto. Tudo estava pronto. As meninas saltitavam animadas para entrar, não viam a hora de aparecerem com aquelas saias mínimas e blusinhas sexys. Acredito que todos na platéia só estavam esperando isso. Tudo estava perfeito, tudo iria dar certo, exceto por uma coisa...
 Fui olhar para fora, para o palco, e via que o salão estava lotado. Havia uma faladeira danada uns entre outros, e eu não conseguia entender muito bem o que estava acontecendo. Em um canto vi o diretor e a secretária conversando, e em seguida a mesma foi para o palco, ajeitando o microfone para começar a faladeira. Meus vagavam incansavelmente pela plateia, procurando uma única pessoa. Onde ele estava? Prometera que viria, mas onde ele estava?!
 — Bom dia professores, alunos e pais de alunos. — Começou a secretária, dando seu formal sorriso que até parecia verdadeiro. — Esta é uma ocasião muito especial, porque nós temos a festa de formatura do nosso querido Highland Private School. É uma honra para mim apresentar o nosso senhor diretor, o professor Ethan Williams. Aplausos, por favor.
 As palmas ecoaram enquanto o diretor entrava no palco, e a secretária tomava seu lugar ao seu lado. Era um homem com uma aparência meio jovial, mas nem tanto assim. Sua mente era horrível, e percebia-se logo de cara. Ele tomou seu lugar no púbito e deu um enorme sorriso.
 — Obrigado, obrigado. Muito obrigado. Antes de começar, eu quero dar as boas vindas, porque temos o orgulho de contar com a presença do senhor secretário Collins. Bem vindo, secretário. — Ethan apontou para o pai de Joe na platéia, e mais uma vez as palmas ecoaram. Eu apenas revirei os olhos com isso. Não é de hoje que Ethan baba o ovo da família Collins. Ele continuou: — Senhores professores, familiares e amigos, alunos... Um novo ciclo escolar chega ao fim... — Pelo canto do olho, pude ver a filha do diretor, sentada no meio da platéia, olhar com desprezo para o pai em cima do palco e colocar seus inseparáveis fones de ouvidos e abaixar a cabeça, meio revoltada. A garota ao seu lado a cutucou e tentou tirar seus fones, mas foi em vão. — ... Do Highland Private School. E aqui encerramos satisfatoriamente outro capítulo mais da história da nossa escola, a serviço da comunidade. — Mais palmas.
 Meus olhos ecoaram novamente. Eu não o encontrava. Que droga, porque eu não o encontrava? Ele me prometeu.
 — O que está fazendo aqui? — Isabella me cutucou, chegando ao meu lado. — Vão te ver!
 — Eu ainda não encontrei o meu pai. — Respondi, quase sussurrando.
 — Ele ainda não deve ter chegado.
 — Não. E eu não vou começar sem ele.
 — Amiga, ele pode ter se atrasado. — Ela suspirou. — Só isso.
 — Isabella, ele me disse que não ia faltar! — Engoli o choro o máximo que eu pude. — Ele não pode faltar hoje, Isabella...
 — Selena, não fica assim! — Ouvi outra voz atrás de mim, de uma outra garota de nosso grupo. Não me virei. — O motorista deve vir. Não é sempre ele que vem e nunca o seu pai?
 Rangi os dentes.
 — Garota, porque você não se mete na sua vida?! — Gritei, cerrando os punhos para não fazer merda.
 — Falei mentira? — Ela levantou as sobrancelhas.
 Balancei a cabeça e voltei a olhar para o púbito, enquanto o diretor Ethan ainda falava.
 — As melhores famílias, os melhores nomes do nosso amado país, aproximam o nosso templo do saber aos seus filhos. — Ele sorriu, totalmente orgulhoso. — Confiando que faremos dele homens e mulheres de bem. Pessoas importantes para toda a sociedade...
 Meu coração disparou ao olhar para a entrada. Uma pessoa nada estranha vinha entrando por ela, e se sentando em uma das cadeiras do corredor. Um alívio e ao mesmo tempo uma tristeza profunda. Não era o meu pai, e sim nosso motorista. Uma fúria tremenda subiu em meu coração. Ele realmente mandou o nosso motorista, e nem se deu ao trabalho de usar as pernas e vir! Senti minha garganta queimar, e meus olhos também.
 — Selena, não fica assim por causa dessa idiota. — Falou Isabella.
 — Não. — Balancei a cabeça, me virando para ela. — Não, Isabella. Quem tá me deixando assim é o meu pai. Mas se é isso que ele quer, ele vai me pagar. — Olhei para o motorista e para Isabella de novo. — Eu volto, já já.
 — Aonde você vai? — Isabella murmurou, me segurando antes que eu saísse.
 — Eu vou me arrumar.
 — Mas você já está arrumada!
 — Ainda não. Mudança de planos.
 Soltei-me de Isabella e segui para o camarim, ainda com muita raiva.

Estúdio Fitz'Burn
Nova York
Demi's POV

 Cheguei correndo ao estúdio, ainda com o roupão. Eu desconfiava que a assistente de minha mãe contaria o que eu fiz, mas na hora eu não me preocupava com isso. Não entrei de imediato, pois ela ainda podia estar se aprontando para fazer as fotos. Eu suspirei e fiquei tranquila que todos estavam dentro do estúdio. Olhei pela fresta da porta, e minha mãe estava sentada no sofá branco, já com seu bíquini sexy e uma multidão em cima da mesma, passando maquiagem. Seu salto de 1 metro já estava posto em seus pés e ela sorria se olhando no espelho. Ah, por favor! É minha mãe mesmo?
 — Um pouco mais de pó aqui, por favor. — Ela falou com um de seus maquiadores, apontando para seu ombro esquerdo. A mulher logo a obedeceu.
 — Você está linda, Sophia. Está maravilhosa. — Disse o fotógrafo enquanto sorria para ela.
 — Eu devia tomar um pouquinho mais de sol, não acha?
 — Não, não se preocupe com isso. Relaxa que eu cuido do resto.
 Ouviram-se gritos vindo de lá de baixo. Não posso esquecer de constar que foi uma missão quase impossível de chegar aqui, já que a rua está interditada por tantos fãs enlouquecidos lá embaixo. Quase tive que me disfarçar de power-ranger para conseguir entrar, sem exageros. De repente ouvi passos vindo para a porta da sala de fotografias, e rapidamente corri para a primeira pilastra que encontrei. Olhei pelo canto do olho e vi a assistente entrando rapidamente na sala, com uma garrafa de água em suas mãos. Ela entrou rápido e eu suspirei aliviada por não ter me visto. Com certeza estava me procurando até agora. Corri novamente para frente da porta e continuei olhando pela fresta.
 — Ah, que bom que chegou! — Disse minha mãe á assistente. — Me dá essa água! — Disse pegando a água.
 — Está todo mundo lá fora! — Disse a moça, com os olhos brilhando. — Você sabe, câmeras, fotógrafos, repórteres, fãs... Tudo perfeito, amiga.
 — E está tudo bem? — A assistente assentiu em resposta.
 Revirei os olhos. Eu estranhei minha mãe não ter colocado o FBI atrás de mim até agora. Eu já devia estar atrasada, a ponto de ela achar que eu havia sido sequestrada... Ou sequestrado alguém.
 — E sabe pra quê isso? Porque ser a artista mais importante do país tem o seu preço. — Falou novamente o fotógrafo.
 — Ah, fofo, você é um amor de pessoa. — Minha mãe sorriu. Aquele sorriso bem doce que me dava enjoô.
 — E sabe do que mais? A ideia de ter a sua filha nas fotos pra mim é sensacional. Vai ser um sucesso essa revista.
 Ah, até que enfim tocaram no meu nome!
 — Ok, mas cuidado com a Demi, porque ela é uma menina. — O sorriso de minha mãe sumiu ao falar de mim.
 — Não se preocupe, eu vou cuidar dela como se fosse minha própria filha.
 — É bom, porque senão eu acabo com a sua raça!
 — Eu juro, você vai ver. — Ele levantou as mãos, rendido.
 — A propósito, cadê ela? Está demorando! — Minha mãe "acordou".
 A cara da assistente havia mudado. Ela sabia muito bem o que eu tinha feito, e não queria contar de jeito nenhum. Sua cara vacilava, e ela olhou para baixo.
 — Ér... Acho que teve um probleminha com as roupas.
 — Com as roupas? — Minha mãe juntou as sobrancelhas.
 Hora de entrar em cena!
 Bufei e entrei na sala, fazendo todos me olharem. Eu ainda estava com o roupão rosa me envolvendo, e dei um sorriso venenoso. A assistente me olhou com desaprovação, e minha mãe se levantou louca do sofá.
 — Demi, minha filha! — Ela me apertou em seu abraço de urso, não se importando se sua maquiagem e seu glitter saíriam. — O que aconteceu com a roupa?
 — Ups! Eu doei para os ciganos na rua. — Dei um sorriso inocente.
 — Como assim doou? — Pude ver seus olhos se arregalando de surpresa. — É tudo versáti!
 — Ah, eles que usem aquilo. Porque eu não vou andar fantasiada.
 — Como fantasiada?
 — Além disso, eu botei outra coisa!
 — Que coisa?
 Desamarrei meu roupão, com um sorriso vitorioso. Tirei-o, e antes de o mesmo cair no chão, minha mãe já gritava de horror. Era uma arte no corpo, uma roupa desenhada, e devemos dizer que foi bem sexy.
 — DEMI, PELO AMOR DE DEUS, CUBRA-SE! — Ela gritou, pegando o roupão no chão e me cobrindo novamente. — Virem todos para lá! Eu proíbo você de posar assim, vai trocar de roupa agora!
 — Calma! Eu já ouvi, está bem?
 — Que absurdo...
 — Quer parar de falar comigo nesse tom de desesperada? Não faz sentido ficar toda nervosinha! — Bufei.
 — O que tem o tom a ver com isso, Demi? Para de fazer pirraça de menina idiota e vai trocar de roupa agora! Vai logo!
 — Mãe, chega! — Gritei, parando seus braços. — Eu me visto como eu quiser, está bem?
 Ela me olhou em silêncio por alguns segundos, talvez se perguntando de que mundo eu era.
 — Ah é? — Ela levantou as sobrancelhas. — Sou sua mãe, Demi, eu sei o que é conveniente.
 — Ah é, claro! Você vai sair linda, quase peladinha, e quer que eu saia vestida como uma menina recém saída do jardim de infância.
 — Você vai como uma menina. Linda, mas como uma menina. Vai trocar de roupa!
 — Menina é a vovózinha, ouviu?! — Tirei meu roupão com força, batendo-o no chão.
 Ela bufou, colocando as mãos na cabeça e fechando os olhos, tentando se acalmar.
 — Demi, meu amor, por favor, minha filha...
 — Minha filha nada! — Interrompi. — Vai ser assim ou nada. Decide, mamãe.

Salão
Highland Private School
Nova York
Selena's POV

 Saí do camarim e cheguei correndo até onde todas as outras garotas estavam reunidas. Cheguei a tempo de ouvir a secretária anunciar no púbito a nossa apresentação:
 — Agora, nossas lindas alunas que entram para o 4º ano, vão nos provilegiar com uma bela coreografia, dirigida pela aluna Selena Gomez. Aplausos, por favor.
 As palmas ecoaram, mas eu ainda não havia terminado. Me virei para ajeitar o CD que trazia em minhas mãos e já podia escutar as garotas reclamando de minha falta. Ao terminar, corri para o meio delas, que me olharam como se eu fosse muito retardada.
 — Onde você estava? — Isabella rangeu os dentes.
 — O meu pai já chegou? — Ignorei a pergunta dela. Ela suspirou.
 — Não, ainda não. Fiquei aqui olhando e ainda não vi.
 — Tudo bem. — Balancei a cabeça. Eu ainda tinha esperanças. — Olha só, quando eu der o sinal, você tira o CD e coloca esse. — Dei pra ela o CD que trazia em minhas mãos.
 Ela me olhou confusa.
 — O que é isso?
 — Quando eu avisar, faça o que eu mandei. Rápido, vai pro seu lugar!
 Isabella murmurou e foi para o seu lugar. Posicionei as garotas e entramos.
 A música que escolhemos foi uma música leve, algo como Run The World. Todas nós usavámos a mesma roupa, e eu já pude perceber os garotos já levantando os olhos para nós na plateia. Começamos a dançar, uma dança leve, ensaiada muito bem, e todos estavam satisfeitos, pelo que eu pude notar. Meu motorista batia palmas e sorria, o que me deixou feliz por alguns segundos, mas eu não me esquecia do que realmente estava fazendo ali.
  Logo quando a música já estava acabando, eu parei de dançar subitamente. As garota me olharam confusas, mas continuaram dançando. Fui para a frente do palco, olhando para Isabella, falando-a para trocar o CD. Isabella parou a música, fazendo todos olharem confusos e cochichos começaram a ecoar pelo salão. Logo começou a outra, que na verdade era uma música do Kanye West que eu escolhi, daquelas bem proibidas. Todos me olhavam, não estavam entendendo nada.
  Ao começo das primeiras notas, agaixei e me levantei, fazendo todos gritarem. Comecei a rebolar de todos os jeitos que eu sabia, e eu vi algumas garotas e garotos se levantando, me chamando de gostosa ou coisa do tipo. Eu ri e continuei a dançar. Tirei minha mini-blusa e depois meu short. Eu estava completamente sensual e pude ver o motorista começar a ficar pirado.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Episódio 1 - Afraid

Porque eu gosto de quem presta atenção em mim. De quem procura novidade mesmo me conhecendo do avesso. De quem não desiste de me descobrir. De quem não se cansa da rotina. De quem se entrega. Sempre. — Clarissa Corrêa.

Highland Private School - Nova York - Selena's POV

 Desci as escadas para o salão principal. Havia uma aglomeração intensa de alunos naquela hora, pessoas com suas malas e tantos outros objetos rondavam os arredores, e é claro, não posso deixar de notar que todos estavam devidamente acompanhados de seus pais. Eu suspirei e olhei novamente para o enorme portão de entrada. Como sempre, meu pai ainda não havia chegado.

 O colégio Highland Private School é o melhor internato do país, situado na cidade de Nova York. Naquele instante, os alunos estavam se preparando a todo fervor para entrarem de férias, já que começara o ano letivo e ainda tínhamos algumas semanas longe de trabalhos e provas. A alegria era grande, claro, e queríamos curtir muito naquelas férias. Eu estava louca pra sair daqui, e já planejava uma viagem para o Caribe com papai. Como hoje seria mais uma festinha de "boas vindas" organizada pelo diretor, as meninas do 4º ano — o qual era o meu ano — organizaram uma coreografia, onde eu tive a ideia e preparei tudo, do meu jeito. Queria muito mostrar isso a meu pai, mas ele não chegava. Não aparecia. Eu já estava posta dentro de meu uniforme, olhando incansavelmente para a maldita porta de entrada, onde ele não surgia.

 — Anda, vem rápido! — Senti alguém pegar em meu braço, e me puxar para a escada. Olhei e vi Isabella.

 — Não, não, espera, Isabella! — Soltei-me dela, ficando no mesmo lugar em que estava. — O meu pai ainda não chegou, e eu quero que pegue o melhor lugar.

 — Eu não estou vendo ele. — Ela rolou os olhos pelo salão.

 — Eu também não, mas vou esperar aqui.

 — Ah, vamos logo...

 — E aí, Selena! — Me virei para ver quem me chamava. Eu não o conhecia, na verdade. Era um garoto, baixo e cabelos escuros, com sorrisos de covinha, que trazia consigo um enorme girassol.

 — Oi. — Dei um sorriso simpático, enquanto Isabella batia o pé atrás de mim, impaciente.

 — O que vai fazer depois da festa de formatura? — Perguntou ele, sorrindo de orelha a orelha.

 — Ah, eu vou sair com os meus amigos. — Dei de ombros.

 Ele pareceu decepcionado por um instante, mas logo retomou o sorriso, com mais confiança.

 — Hmm. E algum dia vai sair comigo? — Perguntou, sorrindo.

 Isabella riu atrás de mim. Soltei um risinho, mas nada extravagante.

 — Eu vou! — Falei. — Um dia eu vou sair com você. Aliás, porque você não me liga nas férias? Ok?

 — T-ta. — Ele sorriu, nervoso, e em seguida deu a flor em minhas mãos.

 — Hm, obrigada. — Eu sorri. Em um impulso, senti ele avançando para mim e me dando um beijo rápido na bochecha.

 — T-tchau. — Ele gaguejou, indo até as escadas, cambaleando um pouco.

 Me virei e vi Isabella olhar chocada para mim, ainda rindo pelo pequeno "tombo" do garoto nas escadas.

 — Coitadinho! — Falou ela. — Porque você pediu pra ele te ligar nas férias se você vai viajar?

 — Foi por isso! Pra ele me ligar quando eu não estiver! — Nós duas rimos por alguns instantes, imaginando a tal cena.

 — Agora, venha! — Isabella me puxou até as escadas.

 — Não, espera! Espera o meu pai! — Gritei, mas de nada adiantou, já me via sendo puxada por Isabella.

Flórida - Nick's POV

 Acordei, peguei a moto da garagem e fui. Fui sentir o vento na cara, fui sentir  a brisa, a maresia, fui colocar os pensamentos — e os sentimentos — no devido lugar. Fui esfriar a cabeça, que estava precisando. Fui simplesmente viver. Minha cabeça anda cheia de muitos problemas, e minha vida ultimamente não está prestando para nada, e muito menos para alguém.

 Parei no lugar de sempre. Ás milhas do mar, á enorme pedra, aquela árvore na areia onde eu considero um paraíso. Sentei ali embaixo, pegando a filmadora de meu bolso, e coloquei no vídeo de sempre. Meu pai.

 Moro na Flórida desde que nasci. Isso aqui pra mim era um paraíso, meu lugar favorito no mundo. Essa cidade aglomerava meus sonhos e meus objetivos, eu tinha tudo que eu precisava. Minha mãe, minha irmã... Meu pai. E de repente eu odeio esse lugar tanto quanto odeio a minha vida.

 Desde que meu pai morreu, isso aqui não é mais a mesma coisa. Acho que nunca mais vai ser. Ele se foi, e a beleza do lugar também. Aqui, onde eu estava agora, era o único lugar onde eu ainda não odiava o amava. Aqui, de algum jeito, eu poderia pensar nele e quem sabe falar com ele. Ali mesmo. Sei que a saudade era uma merda e era horrível, mas eu tinha que aguentar. Precisava. Precisava pensar que a vida seguia em frente.

 Estava reproduzindo o mesmo vídeo de sempre da pequena filmadora. Nele via-se um homem; alto, forte e de leves cabelos encaracolados e desgrenhados, com uma barba mal-feita e roupa largadas. Meu pai. E também havia um garoto de 8 anos, parecido com o pai, correndo solto pelo galpão velho de onde eles brincavam naquela hora. Sorrisos estampavam nossos rostos, enquanto ele corria atrás de mim, e eu pulava de madeira em madeira no chão. Ele me dava beijos no rosto, que eram doces e que tinham tanta ternura. O que eu mais queria era reviver todos esses momentos novamente, mesmo sabendo que era impossível. "Ele se foi", repetia a mim mesmo em pensamento. Não há mais jeito. Nesse momento, só posso sonhar e querer ele aqui do meu lado.

Highland Private School - Nova York - Joe's POV

 Mais e mais pessoas esbarravam em mim no grande salão enquanto eu me encaminhava até meus pais na entrada, de má vontade. As líderes de torcida sorriam e piscavam pra mim no decorrer do caminho, e eu apenas sorria. Já havia pegado quase todas elas, e nesse ano não seria diferente. Dei mais alguns passos e bufei quando os vi parados na porta. Meu pai, o deputado, o secretário, fumando seu inseparável cigarro e minha mãe, a "donzela", a maior perua banhada em loja de Nova York. Não querendo julgá-los, eu os amo, mas não os suporto muitas vezes.

 — Porque? Ir pra Londres agora? — Eu disse depois de alguns minutos de conversa. Minutos suficientes para uma nova discussão.

 — Joe! — Repreendeu minha mãe. — Por favor. Você vai poder ver seus irmãos, vai ficar com eles.

 — Mãe, disseram que íamos á praia.

 — Houve uma mudança de planos. — Meu pai ergueu as sobrancelhas, dando uma tragada forte no cigarro. — Agora nós vamos para a Europa, Joe.

 — Eu prometi ao Jacob que iria comigo. — Apontei para Jacob Johnson ao meu lado, que havia chegado uns minutos antes da conversa. — Não foi? — Cerrei os dentes, encarando-o, esperando que ele sustentasse a mentira.

 Jacob era meu melhor amigo desde sempre. Meu pai, um dos homens mais ricos desse país, tentou se livrar de mim me colocando nesse manicômio de escola, mas para azar dele — e do meu, claro — ele ainda é obrigado a pisar aqui muitas vezes ao ano para ver como está o filhinho. Na verdade, eu odeio essa escola. Você simplesmente não pode fazer nada, as pessoas são desprezíveis e suas cabeças estão sempre pensando em algum tipo de emprego ou faculdade. Ainda é meu penúltimo ano, o que é horrível, pois não aguento mais essas pessoas.

 Pela minha grande vontade de querer "viver" aqui dentro, eu apronto algumas em determinados momentos, o que causa a ira de meu pai, e Jacob sempre está comigo em tudo. Pelas notas dele, Joe Walker é considerado o "galã" da escola, e é claro que ele e Selena Gomez têm que ficar juntos. Bobagem. Não vou me prender á ninguém.

 Olhei para Jacob e dava pra ver em seus olhos que ele não iria contribuir com a minha mentira.

 — Não, não. — Ele balançou a cabeça, olhando para meus pais. — Eu posso ir pra praia com os meus pais, não tem problema.

 — Tá bom, mas eu me importo! — Bufei, me virando pra ele. — Vai ser uma chatice ficar nesse colégio.

 Para esclarecer: eu não iria viajar para a praia coisa nenhuma! Pelo contrário, iria passar todas as minhas férias trancado em alguma casa na Europa, para minha grande felicidade. Como eu disse, iríamos a praia, eu e meus pais — pela primeira vez ele tiraria um tempo de folga —, mas é apaixonado pela política e consegue fugir de qualquer compromisso que inclua sua família. E agora tenho que ser obrigado a participar de qualquer coisa que ele quiser, incluindo a política.

 — Joe, isso não está em discussão. — Falou ele, em tom firme e sempre frio. — Você vai conosco e está acabado.

 — O embaixador quer uma reunião com o seu pai. — Completou minha mãe.

 — Ué, então vai sozinho! Você tem que estragar as minhas férias? — Cerrei os dentes para meu pai.

 — Olha, já chega! — Ele soltou um pouco de fumaça do cigarro, bufando. — Eu vim ver você, apesar da campanha eleitoral. E não vou perder o meu tempo com as suas pirraças, entendeu?

 Eu bufei, fechando os punhos, querendo dar um soco em alguma coisa. O pior de tudo era saber que eu não podia discutir com ele. Eu não podia enfrentá-lo, e ele nunca quer saber o que eu quero, do que eu gosto, do que eu prefiro. Ele nunca quer saber nada disso, o que me dá certa revolta. Revirei os olhos e suspirei, e rapidamente senti braços me abraçando por trás. Me virei e vi a garota loira sorrindo. Jacob me olhou com sinal para irmos para outro lugar, e ela me puxou rapidamente, e saí de perto de meus pais, para meu alívio. Eles nem perceberam, e também não estavam nem aí.

    Flórida - Nick's POV

 Cheguei em casa, depois de toda aquela cachoeira de lembranças. De início, não vi ninguém, mas na hora não liguei e fui direto para meu quarto. Ainda com a câmera na mão, revirei minhas gavetas, pegando mais fitas com meu pai, colocando-as em cima da cama. Haviam dias em que eu mergulhava de cabeça nele, totalmente, e eu estava assim hoje. Deitei em minha cama, totalmente vidrado nos vídeos. Em minha cabeça se passavam mil coisas. Mal ouvi quando a porta de meu quarto foi aberta e lá estava minha irmã de 7 anos, com seus olhos inocentes e seu sorriso meio banguela.

 Eu me levantei rapidamente, me sentando enquanto ela corria para meu colo.

 — Oi, linda. — Sorri fraco, beijando seu rosto.

 — Porque pegou todas essas fitas? — Perguntou, apontando para as fitas na cama.

 — Porque essas fitas tem imagens do papai. Lembra? — Ela sorriu, pegando uma delas.

 — Sabia que você se parece muito com ele?

 Eu sorri, passando a mão em seus pequenos cachos escuros.

 — É, eu sei.

 Ela baixou os olhos, parecendo pensar nas próximas palavras que iria usar.

 — Ás vezes, quando está dormindo, venho aqui no seu quarto e fico um tempão te olhando. — Falou ela. Juntei as sobrancelhas, confuso.

 — Ah é? — Soltei um risinho. — E pra quê?

 — É como se o papai tivesse voltado e estivesse dormindo.

 Meu sorriso desapareceu, e eu forcei os olhos, fechando-os com força, várias coisas martelando em minha cabeça naquela hora. Eu gostava de lembrar do meu pai, claro que eu gostava. Mas quando eu estivesse sozinho, perdido em minhas próprias lembranças, em meus próprios choros e angústias. Ninguém precisava saber. Mas eu não podia negar que doía muito falar dele com outra pessoa, principalmente com minha irmã, que ainda não aceitava o fato, assim como eu.

 — O papai não está mais com a gente, baixinha. — Sussurrei, olhando em seus olhos.

 — Mas eu sinto falta dele.

 — Eu sei, mas... — Bufei, tentando pensar no que dizer. — Mas o papai morreu e já faz muito tempo.

 — Porque ele morreu? — Ela juntou as sobrancelhas, realmente confusa.

 — Não, não, claro que não. — Suspirei. — O problema é que um senhor... Muito, muito mal jogou sujo.

 — Foi por isso que ficamos sem nada... E sem o papai?

 — É, foi por culpa desse homem. — Revirei os olhos, repreendendo toda a raiva que queria consumir o meu corpo naquela hora. Todo ódio eu mandava sair. Naquele momento eu não podia ficar com raiva daquele, não podia simplesmente descontar e tudo para ela naquele momento. Eu não me permitia.

 — Você conhece esse senhor? — Perguntou ela. "Não, mas ainda vou matá-lo!", pensei em responder isso.

 — Ainda não. — Eu disse, dando um sorriso fraco. Em seguida, ela me abraçou, se aninhando em meu colo.

 Naquele momento, cerrei os dentes. Quando paro para pensar naquele homem, a fúria em mim não acha tréguas. Ele simplesmente vai me pagar.  Vai pagar por tudo que fez á mim e a minha família, por tudo de mal que fez ao meu pai! Ele não perde por esperar.