quinta-feira, 30 de maio de 2013

Episódio 1 - Afraid

Porque eu gosto de quem presta atenção em mim. De quem procura novidade mesmo me conhecendo do avesso. De quem não desiste de me descobrir. De quem não se cansa da rotina. De quem se entrega. Sempre. — Clarissa Corrêa.

Highland Private School - Nova York - Selena's POV

 Desci as escadas para o salão principal. Havia uma aglomeração intensa de alunos naquela hora, pessoas com suas malas e tantos outros objetos rondavam os arredores, e é claro, não posso deixar de notar que todos estavam devidamente acompanhados de seus pais. Eu suspirei e olhei novamente para o enorme portão de entrada. Como sempre, meu pai ainda não havia chegado.

 O colégio Highland Private School é o melhor internato do país, situado na cidade de Nova York. Naquele instante, os alunos estavam se preparando a todo fervor para entrarem de férias, já que começara o ano letivo e ainda tínhamos algumas semanas longe de trabalhos e provas. A alegria era grande, claro, e queríamos curtir muito naquelas férias. Eu estava louca pra sair daqui, e já planejava uma viagem para o Caribe com papai. Como hoje seria mais uma festinha de "boas vindas" organizada pelo diretor, as meninas do 4º ano — o qual era o meu ano — organizaram uma coreografia, onde eu tive a ideia e preparei tudo, do meu jeito. Queria muito mostrar isso a meu pai, mas ele não chegava. Não aparecia. Eu já estava posta dentro de meu uniforme, olhando incansavelmente para a maldita porta de entrada, onde ele não surgia.

 — Anda, vem rápido! — Senti alguém pegar em meu braço, e me puxar para a escada. Olhei e vi Isabella.

 — Não, não, espera, Isabella! — Soltei-me dela, ficando no mesmo lugar em que estava. — O meu pai ainda não chegou, e eu quero que pegue o melhor lugar.

 — Eu não estou vendo ele. — Ela rolou os olhos pelo salão.

 — Eu também não, mas vou esperar aqui.

 — Ah, vamos logo...

 — E aí, Selena! — Me virei para ver quem me chamava. Eu não o conhecia, na verdade. Era um garoto, baixo e cabelos escuros, com sorrisos de covinha, que trazia consigo um enorme girassol.

 — Oi. — Dei um sorriso simpático, enquanto Isabella batia o pé atrás de mim, impaciente.

 — O que vai fazer depois da festa de formatura? — Perguntou ele, sorrindo de orelha a orelha.

 — Ah, eu vou sair com os meus amigos. — Dei de ombros.

 Ele pareceu decepcionado por um instante, mas logo retomou o sorriso, com mais confiança.

 — Hmm. E algum dia vai sair comigo? — Perguntou, sorrindo.

 Isabella riu atrás de mim. Soltei um risinho, mas nada extravagante.

 — Eu vou! — Falei. — Um dia eu vou sair com você. Aliás, porque você não me liga nas férias? Ok?

 — T-ta. — Ele sorriu, nervoso, e em seguida deu a flor em minhas mãos.

 — Hm, obrigada. — Eu sorri. Em um impulso, senti ele avançando para mim e me dando um beijo rápido na bochecha.

 — T-tchau. — Ele gaguejou, indo até as escadas, cambaleando um pouco.

 Me virei e vi Isabella olhar chocada para mim, ainda rindo pelo pequeno "tombo" do garoto nas escadas.

 — Coitadinho! — Falou ela. — Porque você pediu pra ele te ligar nas férias se você vai viajar?

 — Foi por isso! Pra ele me ligar quando eu não estiver! — Nós duas rimos por alguns instantes, imaginando a tal cena.

 — Agora, venha! — Isabella me puxou até as escadas.

 — Não, espera! Espera o meu pai! — Gritei, mas de nada adiantou, já me via sendo puxada por Isabella.

Flórida - Nick's POV

 Acordei, peguei a moto da garagem e fui. Fui sentir o vento na cara, fui sentir  a brisa, a maresia, fui colocar os pensamentos — e os sentimentos — no devido lugar. Fui esfriar a cabeça, que estava precisando. Fui simplesmente viver. Minha cabeça anda cheia de muitos problemas, e minha vida ultimamente não está prestando para nada, e muito menos para alguém.

 Parei no lugar de sempre. Ás milhas do mar, á enorme pedra, aquela árvore na areia onde eu considero um paraíso. Sentei ali embaixo, pegando a filmadora de meu bolso, e coloquei no vídeo de sempre. Meu pai.

 Moro na Flórida desde que nasci. Isso aqui pra mim era um paraíso, meu lugar favorito no mundo. Essa cidade aglomerava meus sonhos e meus objetivos, eu tinha tudo que eu precisava. Minha mãe, minha irmã... Meu pai. E de repente eu odeio esse lugar tanto quanto odeio a minha vida.

 Desde que meu pai morreu, isso aqui não é mais a mesma coisa. Acho que nunca mais vai ser. Ele se foi, e a beleza do lugar também. Aqui, onde eu estava agora, era o único lugar onde eu ainda não odiava o amava. Aqui, de algum jeito, eu poderia pensar nele e quem sabe falar com ele. Ali mesmo. Sei que a saudade era uma merda e era horrível, mas eu tinha que aguentar. Precisava. Precisava pensar que a vida seguia em frente.

 Estava reproduzindo o mesmo vídeo de sempre da pequena filmadora. Nele via-se um homem; alto, forte e de leves cabelos encaracolados e desgrenhados, com uma barba mal-feita e roupa largadas. Meu pai. E também havia um garoto de 8 anos, parecido com o pai, correndo solto pelo galpão velho de onde eles brincavam naquela hora. Sorrisos estampavam nossos rostos, enquanto ele corria atrás de mim, e eu pulava de madeira em madeira no chão. Ele me dava beijos no rosto, que eram doces e que tinham tanta ternura. O que eu mais queria era reviver todos esses momentos novamente, mesmo sabendo que era impossível. "Ele se foi", repetia a mim mesmo em pensamento. Não há mais jeito. Nesse momento, só posso sonhar e querer ele aqui do meu lado.

Highland Private School - Nova York - Joe's POV

 Mais e mais pessoas esbarravam em mim no grande salão enquanto eu me encaminhava até meus pais na entrada, de má vontade. As líderes de torcida sorriam e piscavam pra mim no decorrer do caminho, e eu apenas sorria. Já havia pegado quase todas elas, e nesse ano não seria diferente. Dei mais alguns passos e bufei quando os vi parados na porta. Meu pai, o deputado, o secretário, fumando seu inseparável cigarro e minha mãe, a "donzela", a maior perua banhada em loja de Nova York. Não querendo julgá-los, eu os amo, mas não os suporto muitas vezes.

 — Porque? Ir pra Londres agora? — Eu disse depois de alguns minutos de conversa. Minutos suficientes para uma nova discussão.

 — Joe! — Repreendeu minha mãe. — Por favor. Você vai poder ver seus irmãos, vai ficar com eles.

 — Mãe, disseram que íamos á praia.

 — Houve uma mudança de planos. — Meu pai ergueu as sobrancelhas, dando uma tragada forte no cigarro. — Agora nós vamos para a Europa, Joe.

 — Eu prometi ao Jacob que iria comigo. — Apontei para Jacob Johnson ao meu lado, que havia chegado uns minutos antes da conversa. — Não foi? — Cerrei os dentes, encarando-o, esperando que ele sustentasse a mentira.

 Jacob era meu melhor amigo desde sempre. Meu pai, um dos homens mais ricos desse país, tentou se livrar de mim me colocando nesse manicômio de escola, mas para azar dele — e do meu, claro — ele ainda é obrigado a pisar aqui muitas vezes ao ano para ver como está o filhinho. Na verdade, eu odeio essa escola. Você simplesmente não pode fazer nada, as pessoas são desprezíveis e suas cabeças estão sempre pensando em algum tipo de emprego ou faculdade. Ainda é meu penúltimo ano, o que é horrível, pois não aguento mais essas pessoas.

 Pela minha grande vontade de querer "viver" aqui dentro, eu apronto algumas em determinados momentos, o que causa a ira de meu pai, e Jacob sempre está comigo em tudo. Pelas notas dele, Joe Walker é considerado o "galã" da escola, e é claro que ele e Selena Gomez têm que ficar juntos. Bobagem. Não vou me prender á ninguém.

 Olhei para Jacob e dava pra ver em seus olhos que ele não iria contribuir com a minha mentira.

 — Não, não. — Ele balançou a cabeça, olhando para meus pais. — Eu posso ir pra praia com os meus pais, não tem problema.

 — Tá bom, mas eu me importo! — Bufei, me virando pra ele. — Vai ser uma chatice ficar nesse colégio.

 Para esclarecer: eu não iria viajar para a praia coisa nenhuma! Pelo contrário, iria passar todas as minhas férias trancado em alguma casa na Europa, para minha grande felicidade. Como eu disse, iríamos a praia, eu e meus pais — pela primeira vez ele tiraria um tempo de folga —, mas é apaixonado pela política e consegue fugir de qualquer compromisso que inclua sua família. E agora tenho que ser obrigado a participar de qualquer coisa que ele quiser, incluindo a política.

 — Joe, isso não está em discussão. — Falou ele, em tom firme e sempre frio. — Você vai conosco e está acabado.

 — O embaixador quer uma reunião com o seu pai. — Completou minha mãe.

 — Ué, então vai sozinho! Você tem que estragar as minhas férias? — Cerrei os dentes para meu pai.

 — Olha, já chega! — Ele soltou um pouco de fumaça do cigarro, bufando. — Eu vim ver você, apesar da campanha eleitoral. E não vou perder o meu tempo com as suas pirraças, entendeu?

 Eu bufei, fechando os punhos, querendo dar um soco em alguma coisa. O pior de tudo era saber que eu não podia discutir com ele. Eu não podia enfrentá-lo, e ele nunca quer saber o que eu quero, do que eu gosto, do que eu prefiro. Ele nunca quer saber nada disso, o que me dá certa revolta. Revirei os olhos e suspirei, e rapidamente senti braços me abraçando por trás. Me virei e vi a garota loira sorrindo. Jacob me olhou com sinal para irmos para outro lugar, e ela me puxou rapidamente, e saí de perto de meus pais, para meu alívio. Eles nem perceberam, e também não estavam nem aí.

    Flórida - Nick's POV

 Cheguei em casa, depois de toda aquela cachoeira de lembranças. De início, não vi ninguém, mas na hora não liguei e fui direto para meu quarto. Ainda com a câmera na mão, revirei minhas gavetas, pegando mais fitas com meu pai, colocando-as em cima da cama. Haviam dias em que eu mergulhava de cabeça nele, totalmente, e eu estava assim hoje. Deitei em minha cama, totalmente vidrado nos vídeos. Em minha cabeça se passavam mil coisas. Mal ouvi quando a porta de meu quarto foi aberta e lá estava minha irmã de 7 anos, com seus olhos inocentes e seu sorriso meio banguela.

 Eu me levantei rapidamente, me sentando enquanto ela corria para meu colo.

 — Oi, linda. — Sorri fraco, beijando seu rosto.

 — Porque pegou todas essas fitas? — Perguntou, apontando para as fitas na cama.

 — Porque essas fitas tem imagens do papai. Lembra? — Ela sorriu, pegando uma delas.

 — Sabia que você se parece muito com ele?

 Eu sorri, passando a mão em seus pequenos cachos escuros.

 — É, eu sei.

 Ela baixou os olhos, parecendo pensar nas próximas palavras que iria usar.

 — Ás vezes, quando está dormindo, venho aqui no seu quarto e fico um tempão te olhando. — Falou ela. Juntei as sobrancelhas, confuso.

 — Ah é? — Soltei um risinho. — E pra quê?

 — É como se o papai tivesse voltado e estivesse dormindo.

 Meu sorriso desapareceu, e eu forcei os olhos, fechando-os com força, várias coisas martelando em minha cabeça naquela hora. Eu gostava de lembrar do meu pai, claro que eu gostava. Mas quando eu estivesse sozinho, perdido em minhas próprias lembranças, em meus próprios choros e angústias. Ninguém precisava saber. Mas eu não podia negar que doía muito falar dele com outra pessoa, principalmente com minha irmã, que ainda não aceitava o fato, assim como eu.

 — O papai não está mais com a gente, baixinha. — Sussurrei, olhando em seus olhos.

 — Mas eu sinto falta dele.

 — Eu sei, mas... — Bufei, tentando pensar no que dizer. — Mas o papai morreu e já faz muito tempo.

 — Porque ele morreu? — Ela juntou as sobrancelhas, realmente confusa.

 — Não, não, claro que não. — Suspirei. — O problema é que um senhor... Muito, muito mal jogou sujo.

 — Foi por isso que ficamos sem nada... E sem o papai?

 — É, foi por culpa desse homem. — Revirei os olhos, repreendendo toda a raiva que queria consumir o meu corpo naquela hora. Todo ódio eu mandava sair. Naquele momento eu não podia ficar com raiva daquele, não podia simplesmente descontar e tudo para ela naquele momento. Eu não me permitia.

 — Você conhece esse senhor? — Perguntou ela. "Não, mas ainda vou matá-lo!", pensei em responder isso.

 — Ainda não. — Eu disse, dando um sorriso fraco. Em seguida, ela me abraçou, se aninhando em meu colo.

 Naquele momento, cerrei os dentes. Quando paro para pensar naquele homem, a fúria em mim não acha tréguas. Ele simplesmente vai me pagar.  Vai pagar por tudo que fez á mim e a minha família, por tudo de mal que fez ao meu pai! Ele não perde por esperar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Episódio 1 - Afraid

Porque eu gosto de quem presta atenção em mim. De quem procura novidade mesmo me conhecendo do avesso. De quem não desiste de me descobrir. De quem não se cansa da rotina. De quem se entrega. Sempre. — Clarissa Corrêa.

Highland Private School - Nova York - Selena's POV

 Desci as escadas para o salão principal. Havia uma aglomeração intensa de alunos naquela hora, pessoas com suas malas e tantos outros objetos rondavam os arredores, e é claro, não posso deixar de notar que todos estavam devidamente acompanhados de seus pais. Eu suspirei e olhei novamente para o enorme portão de entrada. Como sempre, meu pai ainda não havia chegado.

 O colégio Highland Private School é o melhor internato do país, situado na cidade de Nova York. Naquele instante, os alunos estavam se preparando a todo fervor para entrarem de férias, já que começara o ano letivo e ainda tínhamos algumas semanas longe de trabalhos e provas. A alegria era grande, claro, e queríamos curtir muito naquelas férias. Eu estava louca pra sair daqui, e já planejava uma viagem para o Caribe com papai. Como hoje seria mais uma festinha de "boas vindas" organizada pelo diretor, as meninas do 4º ano — o qual era o meu ano — organizaram uma coreografia, onde eu tive a ideia e preparei tudo, do meu jeito. Queria muito mostrar isso a meu pai, mas ele não chegava. Não aparecia. Eu já estava posta dentro de meu uniforme, olhando incansavelmente para a maldita porta de entrada, onde ele não surgia.

 — Anda, vem rápido! — Senti alguém pegar em meu braço, e me puxar para a escada. Olhei e vi Isabella.

 — Não, não, espera, Isabella! — Soltei-me dela, ficando no mesmo lugar em que estava. — O meu pai ainda não chegou, e eu quero que pegue o melhor lugar.

 — Eu não estou vendo ele. — Ela rolou os olhos pelo salão.

 — Eu também não, mas vou esperar aqui.

 — Ah, vamos logo...

 — E aí, Selena! — Me virei para ver quem me chamava. Eu não o conhecia, na verdade. Era um garoto, baixo e cabelos escuros, com sorrisos de covinha, que trazia consigo um enorme girassol.

 — Oi. — Dei um sorriso simpático, enquanto Isabella batia o pé atrás de mim, impaciente.

 — O que vai fazer depois da festa de formatura? — Perguntou ele, sorrindo de orelha a orelha.

 — Ah, eu vou sair com os meus amigos. — Dei de ombros.

 Ele pareceu decepcionado por um instante, mas logo retomou o sorriso, com mais confiança.

 — Hmm. E algum dia vai sair comigo? — Perguntou, sorrindo.

 Isabella riu atrás de mim. Soltei um risinho, mas nada extravagante.

 — Eu vou! — Falei. — Um dia eu vou sair com você. Aliás, porque você não me liga nas férias? Ok?

 — T-ta. — Ele sorriu, nervoso, e em seguida deu a flor em minhas mãos.

 — Hm, obrigada. — Eu sorri. Em um impulso, senti ele avançando para mim e me dando um beijo rápido na bochecha.

 — T-tchau. — Ele gaguejou, indo até as escadas, cambaleando um pouco.

 Me virei e vi Isabella olhar chocada para mim, ainda rindo pelo pequeno "tombo" do garoto nas escadas.

 — Coitadinho! — Falou ela. — Porque você pediu pra ele te ligar nas férias se você vai viajar?

 — Foi por isso! Pra ele me ligar quando eu não estiver! — Nós duas rimos por alguns instantes, imaginando a tal cena.

 — Agora, venha! — Isabella me puxou até as escadas.

 — Não, espera! Espera o meu pai! — Gritei, mas de nada adiantou, já me via sendo puxada por Isabella.

Flórida - Nick's POV

 Acordei, peguei a moto da garagem e fui. Fui sentir o vento na cara, fui sentir  a brisa, a maresia, fui colocar os pensamentos — e os sentimentos — no devido lugar. Fui esfriar a cabeça, que estava precisando. Fui simplesmente viver. Minha cabeça anda cheia de muitos problemas, e minha vida ultimamente não está prestando para nada, e muito menos para alguém.

 Parei no lugar de sempre. Ás milhas do mar, á enorme pedra, aquela árvore na areia onde eu considero um paraíso. Sentei ali embaixo, pegando a filmadora de meu bolso, e coloquei no vídeo de sempre. Meu pai.

 Moro na Flórida desde que nasci. Isso aqui pra mim era um paraíso, meu lugar favorito no mundo. Essa cidade aglomerava meus sonhos e meus objetivos, eu tinha tudo que eu precisava. Minha mãe, minha irmã... Meu pai. E de repente eu odeio esse lugar tanto quanto odeio a minha vida.

 Desde que meu pai morreu, isso aqui não é mais a mesma coisa. Acho que nunca mais vai ser. Ele se foi, e a beleza do lugar também. Aqui, onde eu estava agora, era o único lugar onde eu ainda não odiava o amava. Aqui, de algum jeito, eu poderia pensar nele e quem sabe falar com ele. Ali mesmo. Sei que a saudade era uma merda e era horrível, mas eu tinha que aguentar. Precisava. Precisava pensar que a vida seguia em frente.

 Estava reproduzindo o mesmo vídeo de sempre da pequena filmadora. Nele via-se um homem; alto, forte e de leves cabelos encaracolados e desgrenhados, com uma barba mal-feita e roupa largadas. Meu pai. E também havia um garoto de 8 anos, parecido com o pai, correndo solto pelo galpão velho de onde eles brincavam naquela hora. Sorrisos estampavam nossos rostos, enquanto ele corria atrás de mim, e eu pulava de madeira em madeira no chão. Ele me dava beijos no rosto, que eram doces e que tinham tanta ternura. O que eu mais queria era reviver todos esses momentos novamente, mesmo sabendo que era impossível. "Ele se foi", repetia a mim mesmo em pensamento. Não há mais jeito. Nesse momento, só posso sonhar e querer ele aqui do meu lado.

Highland Private School - Nova York - Joe's POV

 Mais e mais pessoas esbarravam em mim no grande salão enquanto eu me encaminhava até meus pais na entrada, de má vontade. As líderes de torcida sorriam e piscavam pra mim no decorrer do caminho, e eu apenas sorria. Já havia pegado quase todas elas, e nesse ano não seria diferente. Dei mais alguns passos e bufei quando os vi parados na porta. Meu pai, o deputado, o secretário, fumando seu inseparável cigarro e minha mãe, a "donzela", a maior perua banhada em loja de Nova York. Não querendo julgá-los, eu os amo, mas não os suporto muitas vezes.

 — Porque? Ir pra Londres agora? — Eu disse depois de alguns minutos de conversa. Minutos suficientes para uma nova discussão.

 — Joe! — Repreendeu minha mãe. — Por favor. Você vai poder ver seus irmãos, vai ficar com eles.

 — Mãe, disseram que íamos á praia.

 — Houve uma mudança de planos. — Meu pai ergueu as sobrancelhas, dando uma tragada forte no cigarro. — Agora nós vamos para a Europa, Joe.

 — Eu prometi ao Jacob que iria comigo. — Apontei para Jacob Johnson ao meu lado, que havia chegado uns minutos antes da conversa. — Não foi? — Cerrei os dentes, encarando-o, esperando que ele sustentasse a mentira.

 Jacob era meu melhor amigo desde sempre. Meu pai, um dos homens mais ricos desse país, tentou se livrar de mim me colocando nesse manicômio de escola, mas para azar dele — e do meu, claro — ele ainda é obrigado a pisar aqui muitas vezes ao ano para ver como está o filhinho. Na verdade, eu odeio essa escola. Você simplesmente não pode fazer nada, as pessoas são desprezíveis e suas cabeças estão sempre pensando em algum tipo de emprego ou faculdade. Ainda é meu penúltimo ano, o que é horrível, pois não aguento mais essas pessoas.

 Pela minha grande vontade de querer "viver" aqui dentro, eu apronto algumas em determinados momentos, o que causa a ira de meu pai, e Jacob sempre está comigo em tudo. Pelas notas dele, Joe Walker é considerado o "galã" da escola, e é claro que ele e Selena Gomez têm que ficar juntos. Bobagem. Não vou me prender á ninguém.

 Olhei para Jacob e dava pra ver em seus olhos que ele não iria contribuir com a minha mentira.

 — Não, não. — Ele balançou a cabeça, olhando para meus pais. — Eu posso ir pra praia com os meus pais, não tem problema.

 — Tá bom, mas eu me importo! — Bufei, me virando pra ele. — Vai ser uma chatice ficar nesse colégio.

 Para esclarecer: eu não iria viajar para a praia coisa nenhuma! Pelo contrário, iria passar todas as minhas férias trancado em alguma casa na Europa, para minha grande felicidade. Como eu disse, iríamos a praia, eu e meus pais — pela primeira vez ele tiraria um tempo de folga —, mas é apaixonado pela política e consegue fugir de qualquer compromisso que inclua sua família. E agora tenho que ser obrigado a participar de qualquer coisa que ele quiser, incluindo a política.

 — Joe, isso não está em discussão. — Falou ele, em tom firme e sempre frio. — Você vai conosco e está acabado.

 — O embaixador quer uma reunião com o seu pai. — Completou minha mãe.

 — Ué, então vai sozinho! Você tem que estragar as minhas férias? — Cerrei os dentes para meu pai.

 — Olha, já chega! — Ele soltou um pouco de fumaça do cigarro, bufando. — Eu vim ver você, apesar da campanha eleitoral. E não vou perder o meu tempo com as suas pirraças, entendeu?

 Eu bufei, fechando os punhos, querendo dar um soco em alguma coisa. O pior de tudo era saber que eu não podia discutir com ele. Eu não podia enfrentá-lo, e ele nunca quer saber o que eu quero, do que eu gosto, do que eu prefiro. Ele nunca quer saber nada disso, o que me dá certa revolta. Revirei os olhos e suspirei, e rapidamente senti braços me abraçando por trás. Me virei e vi a garota loira sorrindo. Jacob me olhou com sinal para irmos para outro lugar, e ela me puxou rapidamente, e saí de perto de meus pais, para meu alívio. Eles nem perceberam, e também não estavam nem aí.

    Flórida - Nick's POV

 Cheguei em casa, depois de toda aquela cachoeira de lembranças. De início, não vi ninguém, mas na hora não liguei e fui direto para meu quarto. Ainda com a câmera na mão, revirei minhas gavetas, pegando mais fitas com meu pai, colocando-as em cima da cama. Haviam dias em que eu mergulhava de cabeça nele, totalmente, e eu estava assim hoje. Deitei em minha cama, totalmente vidrado nos vídeos. Em minha cabeça se passavam mil coisas. Mal ouvi quando a porta de meu quarto foi aberta e lá estava minha irmã de 7 anos, com seus olhos inocentes e seu sorriso meio banguela.

 Eu me levantei rapidamente, me sentando enquanto ela corria para meu colo.

 — Oi, linda. — Sorri fraco, beijando seu rosto.

 — Porque pegou todas essas fitas? — Perguntou, apontando para as fitas na cama.

 — Porque essas fitas tem imagens do papai. Lembra? — Ela sorriu, pegando uma delas.

 — Sabia que você se parece muito com ele?

 Eu sorri, passando a mão em seus pequenos cachos escuros.

 — É, eu sei.

 Ela baixou os olhos, parecendo pensar nas próximas palavras que iria usar.

 — Ás vezes, quando está dormindo, venho aqui no seu quarto e fico um tempão te olhando. — Falou ela. Juntei as sobrancelhas, confuso.

 — Ah é? — Soltei um risinho. — E pra quê?

 — É como se o papai tivesse voltado e estivesse dormindo.

 Meu sorriso desapareceu, e eu forcei os olhos, fechando-os com força, várias coisas martelando em minha cabeça naquela hora. Eu gostava de lembrar do meu pai, claro que eu gostava. Mas quando eu estivesse sozinho, perdido em minhas próprias lembranças, em meus próprios choros e angústias. Ninguém precisava saber. Mas eu não podia negar que doía muito falar dele com outra pessoa, principalmente com minha irmã, que ainda não aceitava o fato, assim como eu.

 — O papai não está mais com a gente, baixinha. — Sussurrei, olhando em seus olhos.

 — Mas eu sinto falta dele.

 — Eu sei, mas... — Bufei, tentando pensar no que dizer. — Mas o papai morreu e já faz muito tempo.

 — Porque ele morreu? — Ela juntou as sobrancelhas, realmente confusa.

 — Não, não, claro que não. — Suspirei. — O problema é que um senhor... Muito, muito mal jogou sujo.

 — Foi por isso que ficamos sem nada... E sem o papai?

 — É, foi por culpa desse homem. — Revirei os olhos, repreendendo toda a raiva que queria consumir o meu corpo naquela hora. Todo ódio eu mandava sair. Naquele momento eu não podia ficar com raiva daquele, não podia simplesmente descontar e tudo para ela naquele momento. Eu não me permitia.

 — Você conhece esse senhor? — Perguntou ela. "Não, mas ainda vou matá-lo!", pensei em responder isso.

 — Ainda não. — Eu disse, dando um sorriso fraco. Em seguida, ela me abraçou, se aninhando em meu colo.

 Naquele momento, cerrei os dentes. Quando paro para pensar naquele homem, a fúria em mim não acha tréguas. Ele simplesmente vai me pagar.  Vai pagar por tudo que fez á mim e a minha família, por tudo de mal que fez ao meu pai! Ele não perde por esperar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário