Então, de repente, sem pretender, respirou fundo e pensou que era bom viver. Mesmo que as partidas doessem, e que a cada dia fosse necessário adotar uma nova maneira de agir e de pensar, descobrindo-a inútil no dia seguinte - mesmo assim era bom viver. Não era fácil, nem agradável. Mas ainda assim era bom. Tinha quase certeza. — Autor Desconhecido.
Estúdio Fitz'Burn
Nova York
Demi's POV
— Vai botar uma roupa. — Minha mãe grunhiu e voltou a colocar o maldito roupão em mim.
— Eu já disse que não vou, mãe. — Voltei a tirar o roupão, o jogando no chão. Não sei até quando ficaríamos naquilo, mas eu iria insistir.
Ela me olhou pasma, absorta, e colocou as mãos na cabeça, respirando fundo.
— Você quer acabar com a minha carreira. — Ela bufou. — Com a minha vida inteira, filha. Fofo, por favor! — Ela puxou o fotógrafo. — Diz pra ela que não pode sair assim como uma ordinária. Isso vai ser um escândalo!
— Ah, fala sério... — Balancei a cabeça em repreensão. Minha mãe era dramática ao extremo.
— Vai ser um escândalo, o que nos daria muito dinheiro. — O fotógrafo sorriu. — Acho que devemos fazer as fotos.
Eu e minha mãe o olhamos ao mesmo tempo, surpresas.
— Está vendo? — Falei, olhei para minha mãe, que mantinha a boca aberta.
— Mas o que...
— Vai ser muito bom! — Falou ele, esperançoso.
Eu podia ver que minha mãe estava a ponto de enlouquecer. Eu não queria ver aquilo, Sophia Jones podia ser barraqueira ao extremo. Em vez disso, me sentei na grande poltrona branca onde seriam feitas as fotos, sorrindo vitoriosa.
— Como quer que eu pose? — Perguntei, fazendo algumas coisas com as mãos e cruzando as pernas. — Assim?
— Isso. Eu quero você bem natural. — Falou ele, preparando a câmera. — Vamos fazer algo com as duas. — Minha mãe o olhou de cara feia. — Vamos! As duas estão belíssimas, vamos fazer algo.
Minha mãe nos encarou, como se a tivessem colocado contra parede. Ela não tinha saída, se não concordasse as fotos não iriam sair. E era da revista favorita dela, a People. Por fim, ela bufou e se juntou á mim na poltrona branca, dando aquele enorme sorriso dela.
Fizemos as fotos ficarem chocantes de tão belas. Até eu adorei o que havia feito, e eu detestava esse mundo da fama em que era obrigada a viver. Minha mãe era a cantora mais famosa da América, e eu tinha que acompanhá-la. Apesar de nem sempre, pois eu ainda estudava na minha amada escola perto da Times Square, mas sempre que podia minha mãe me arrastava. Ela quase me obrigou a fazer essas fotos, mas até que não foi tão mal. Não foi tão mal aturá-la por um tempo.
Flórida
Nick's POV
Tudo que eu conseguia pensar naquele momento era em como minha vida havia dado uma guinada gigantesca. Mas não uma guinada positiva, não mesmo. Meu pai havia morrido e eu havia acabado de perder a única coisa que me restava das lembranças dele. Iríamos perder tudo. Não sobraria mais nada de meu pai, só as lembranças internas, dentro de meu coração. Dentro de minha mente parecia haver um furacão, parecia estar absorvendo tudo de bom que havia dentro de mim.
Estava sentado em cima da moto dele, olhando sem parar a corrente de prata que ele me deixara. Aquela seria uma das únicas lembranças concretas, que dinheiro nenhum poderia tirar de mim. Nada poderia tirar aquilo de mim. Iria sempre carregá-la comigo. Assim ele também iria me acompanhar sempre em meus momentos.
— Lembra muito do seu pai, não lembra? — Falou minha mãe, surgindo do meu lado, me tirando de meus pensamentos.
Não olhei para ela. Tinha que contar de minha decisão. Em meio a tantos pensamentos, e em meio a todo inferno que estava minha vida, tinha que ter uma saída. Uma solução. Tudo isso começou quando meu pai se foi. Antes disso, eu não poderia querer uma vida melhor. Então agora eu tinha que culpar a pessoa que havia feito aquele estrago. Tinha que me vingar dessa pessoa. Ele iria pagar. Iria pagar por ter matado meu pai, e ter feito tudo isso acontecer. Aquilo poderia não trazer meu pai de volta, e nem melhorar a minha situação, mas com certeza vai melhorar a merda que estava meus pensamentos.
— Vou vender a moto. — Sussurrei, respirando fundo.
Não olhei para minha mãe, mas sabia que ela havia ficado sem reação.
— Não, meu filho, você não precisa vender a moto. Com o que recebi pela casa temos dinheiro suficiente para pagar as coisas aos poucos.
— Eu vou estudar em Nova York, mãe. — Olhei para ela pela primeira vez, e pude ver seus olhos ficando pasmos.
Era lá que ele estava. Lá era onde ele estava situado, e eu iria atrás dele! Nem que precisasse mentir para minha própria mãe, eu iria atrás daquele desgraçado.
Minha mãe revirou os olhos, balançando a cabeça.
— Você insiste nisso. — Ela bufou. — Nick, agora eu não posso pagar uma universidade, mas também não vou poder se você for pra outra cidade!
— Mãe, com o dinheiro que eu receber pela moto, eu posso conseguir uma bolsa.
— Filho, entenda, mesmo que você venda a moto, isso não vai solucionar nenhum problema. — Ela suspirou. — Nova York é um lugar perigoso, eu não quero que...
— Mãe, já falamos sobre isso mil vezes. — Me levantei da moto, pegando em suas mãos. Ela tinha que entender, seria melhor.
— É por isso, meu filho. Porque já falamos disso mil vezes, e eu não entendo porque insiste em ir embora. — Eu bufei, fechando os olhos. — E já tinha me dito que queria estudar em uma universidade aqui. Porque de repente mudou de ideia e quer ir pra Nova York?
Abaixei a cabeça e pensei em uma resposta bem convincente. "Ah mãe, por nada, só quero ir me vingar do desgraçado que matou meu pai." Não. Fora de cogitação.
— Mãe... As pessoas mudam de ideia. — Respondi. — Eu já disse que eu posso conseguir uma bolsa.
— Mas também pode conseguir aqui. — Ela acariciou meus cabelos. — Na universidade. É muito mais fácil.
Abaixei a cabeça e respirei fundo. Tudo seria mais fácil se ela entendesse, e eu não precisaria teimar tanto. Mas eu não podia ficar aqui, na Flórida. Não podia ficar e ver nossa vida caindo desse jeito.
— Então ainda não concorda comigo? — Sussurrei, olhando em seus olhos.
Ela me olhou com ternura.
— Pois é... — Ela suspirou. — E tenho certeza de que seu pai também discordaria.
Eu revirei os olhos e ela entrou de volta para casa. Nossa casa. Antiga casa.
Estúdio Fitz'Burn
Nova York
Demi's POV
— Mãe, não quer pegar um refrigerante? — Perguntei enquanto já estávamos na 70º foto.
— Xiu! — Ela fez sinal com os dedos para eu me calar. — Fica quietinha, criança, a estrela aqui sou eu. — E voltou a fazer as poses para a câmera.
Nós demos uma risadinha e continuamos sorrindo para as fotos. Era muito cansativo, e olha que minha mãe fazia isso pelo menos umas 3 vezes por mês. Vai entender.
Fomos interrompidas por passos entrando na sala quase correndo. Olhei e vi que era a loira assistente de minha mãe.
— Desculpe interromper. — Ela chegou ao fotógrafo. — Temos problemas.
— Eu já disse que quando estou trabalhando, não me interrompa. — Ele disse entre dentes, em um "sussurro".
— É que... Tem um homem que insiste em entrar.
— Quem?
E de repente a porta da sala foi aberta mais uma vez.
— Eu sou o pai da Demi!
Minha barriga esfriou e minha garganta ficou quente. Mas o que esse homem estava fazendo aqui?! Senti eu mesma fechando meus punhos, e bufei alto. O que esse inútil estava fazendo?! Só a presença dele já me infectava. Infectava o ambiente. Todos os sorrisos que eu estampava (e minha mãe igualmente) sumiram naquele momento.
Me levantei da poltrona, ainda com os punhos fechados.
— Quem doou o espermatozóide, melhor dizendo. — Murmurei, fuzilando-o com os olhos.
— Demi, deixa isso comigo, ok? — Minha mãe também se levantou. — Cuida dela pra mim, por favor. — Ela falou com a assistente, sem tirar os olhos de meu pai.
Me sentei novamente na poltrona, mas fiquei completamente absorta no que eles poderiam estar conversando. Eles foram para um canto não muito longe, e eu os segui, me sentando em uma poltrona mais próxima. Abaixei a cabeça para ouvir melhor.
— Não vou permitir que a minha filha viva essas experiências imorais. — Falou ele, aos sussurros.
— Imoral aqui é você! Você sumiu pouco depois que a garota nasceu, e nunca mais sequer telefonou. Isso eu não vou permitir, você não tem nenhum direito de estar aqui.
— A menina tem o meu sobrenome!
— Ah é?
— E nunca se esqueça que nunca lhe faltou um centavo.
— O seu dinheiro nunca foi tocado! Está numa conta, e se quiser eu te devolvo agora mesmo. Mas some daqui.
Me levantei rapidamente dali e voltei para a poltrona branca. Não queria ouvir mais nada.
Sala da direção
Highland Private School
Nova York
Depois da algazarra de Selena e suas amigas, o diretor Ethan decidiu chamar o pai da mesma, nada mais justo. Ou talvez isso não poderia ser uma coisa muito boa e feliz para Selena, já que sua viagem corria perigo depois das demonstrações que havia feito no palco. Ethan entrou em sua sala, encontrando Jayden Gomez futucando seu inseparável celular.
— Senhor Gomez. — Chamou Ethan, tirando Jayden de seus devaneios.
— Como vai? — Ele o cumprimentou com um sorriso forçado.
— Sente-se, por favor.
— Obrigado. — Se sentou.
Ethan suspirou.
— Eu quero pedir que o senhor me entenda. Isso foi mais do que uma travessura. Foi vergonhoso e ela fez na frente dos pais de todos os alunos.
— Entendo, Ethan. Pode dar a ela o castigo que achar melhor e pronto.
— Bem, foi justamente por isso que mandei chamá-lo. Eu acho que é o senhor que deve chamar a atenção da sua filha.
— Bom, mas trata-se de uma questão disciplinar dentro do colégio. — Ele deu de ombros.
Ethan deu um sorriso forçado.
— Olha, Jayden, sinceramente, eu acho que a sua filha tem que ter um limite.
Jayden revirou os olhos, parecendo completamente entediado e estressado. Não gostava de ser chamado na escola e "perder o seu tempo", principalmente por causa de Selena.
— Perdão... Disse alguma coisa inconveniente? — Perguntou Ethan.
— Não, não, ao contrário. É verdade que eu sou muito bonzinho com ela. Mas como não tem mãe, eu estou sempre viajando...
— Mas faz isso por ela. Mais cedo ou mais tarde sua filha vai entender.
— Tem razão. — Assentiu. — O que ela tem que entender agora é que tudo tem limite.
Flórida
Nick's POV
Aceitaram minha moto na concessionária de bom grado. Não era a moto 0km do ano, não era a melhor, mas também não era de se jogar fora. Eu a amava muito, pois era do meu pai, e ele a havia comprado um pouco antes de morrer. Mas eu aguentava, aquilo iria valer a pena. Recebi o cheque e arranquei a corrente de prata onde eu a prendia na moto. Fui andando a pé para casa, pela primeira vez sentindo uma brisa leve e fresca das ruas da Flórida, que eu não sentia a muito tempo. E que não iria mais sentir por um bom tempo.
Mansão de Sophia Jones
Nova York
Demi's POV
— Demi, para de usar as minhas coisas, ok? — Minha mãe disse pela 123038º vez ao me ver usando de seus variados batons em frente a seu espelho.
— Como foi com o velhinho? — Perguntei.
— Mais respeito, mocinha. É o seu pai. — Falou enquanto tirava seu vestido. Havia acabado de chegar em casa após um jantarzinho com meu "pai".
Eu ri, completamente irônica.
— Se ele parece meu avô a culpa é sua, querida, e não minha.
Minha mãe revirou os olhos. Já estava acostumada com minhas grosserias, então eu também não me importava. Saí da frente do espelho *roupa de Demi* e fui me sentar na gigantesca cama de casal, mexendo na mesinha-de-cabeceira ao lado, procurando os morangos e chocolates que minha mãe escondia.
— O que ele quer agora? — Perguntei.
— Agora ele veio dizer que... Eu não sou uma boa mãe.
Eu ri, achando os chocolates.
— Bom, nisso ele tem razão!
— O que?! — Ela me olhou pasma. — Como pode dizer uma coisa assim, Demi?
— Mãe, deixa de ser tão sensível. — Suspirei. — Olha, por sorte eu sei sobreviver á você, então diz pra esse velho que pode voltar sossegado pra Europa e parar de amolar.
— É isso que ele vai fazer. Mas impõe certas condições.
Eu ri.
— O que ele quer que você faça? — Mordi um dos morangos.
— A coisa é... É com você, filha. — Ela sussurrou.
Quase engasguei com o morango que havia acabado de colocar na boca.
— O que? — Falei meio esganada. — Comigo?! O que esse velho quer comigo?
— Ele... Tem certos direitos. É seu pai, não é? — Levantei as sobrancelhas, esperando mais argumentos. — Apesar de ter sumido tantos anos, a lei o protege. E ele pode reclamar a sua guarda, Demi.
— Mãe, se é por isso, não se preocupe. Mandamos os melhores advogados e num dia teremos um dinossauro fora da nossa vida.
— Não, não quero problemas com advogados. Com essas fotos que vão sair na revista e os juízes que temos, corro o risco de te perder, Demi. Prefiro fazer o que ele pede.
— E o que ele pede? — Dei de ombros, começando a ficar entediada.
— Quer que... Você tenha a melhor educação, Demi. — Sua voz ficou mais baixa, e ela abaixou a cabeça. Parecia lutar contra as palavras. Eu dei um riso muito irônico.
— Rá! Diz pra esse senhor que eu já estou bem educadinha. E sei muito mais sobre a vida do que qualquer menininha da minha idade.
— Ele fala de outro tipo de educação. — Olhei-a completamente confusa. — Ele quer que eu te matricule num internato.
— O que?!
Meus olhos queimaram. Minha cabeça formigou. O que ele está pensando, afinal? O que era aquilo?
— É brincadeira, não é?!
Minha mãe negou em resposta.
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