Tenho um segredo pra vocês. Aproximem-se! Não lemos nem escrevemos poesia porque é bonitinho. Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana. E a raça humana está repleta de paixão. E medicina, advocacia, administração, engenharia são objetivos nobres e necessários para manter-se vivo. Mas a poesia, beleza, romance, amor é para isso que nós vivemos. Citando Whitman: “Ó eu! Ó vida! Entre as questões que reaparecem, os intermináveis trens dos desleais, cidades cheias de tolos. O que há de bom entre eles, ó eu? Ó vida? Resposta. Que você está aqui. A vida existe e a identidade. Que essa brincadeira de poder continue e você pode contribuir com um verso.” Qual será o verso de vocês? — Sociedade dos poetas mortos.
Salão Mystic Sal's
Califórnia
"Ah, quando conhecer o colégio não vai acreditar, parece até um hotel de 5 estrelas." — falou a tia de Miley enquanto penteava os cabelos da sobrinha — "Os quartos são como suítes presidenciais, lindos!"
"Tia, e se não me aceitarem? O que vai acontecer? O que eu vou fazer se eu não entrar pra esse colégio?" — perguntou Miley, se virando para a tia.
"Mas porque, filha? Porque não vão aceitá-la e entrar nesse colégio?"
"Não, não é isso, mas eu morro de medo. Eu juro que morro de medo de não passar nessa prova!"
"Será aprovada." — ela sorriu.
"Depois de tudo que ficou gastando com os professores particulares pra que eu pudesse entrar... Mas eu prometo que eu vou te pagar por tudo que você fez por mim."
"Oh, esquece essa história de pagar! Porque se disser de novo eu queimo o seu cabelo, faço um permanente e vou deixar tudo verde, o que você acha disso?"
"Então você vai me maltratar?" — perguntou Miley, se segurando para não rir.
"Vou, vou sim! Vou deixar você careca, o que acha?"
"Você é muito má!" — as duas riram e se abraçaram.
"Minha linda..." — a mulher sussurrou no ouvido de Miley, causando um conforto na menina.
"Obrigada por tudo, tia."
"Não tem o que agradecer. E lembre-se, se não gostar de alguma coisa ou se alguém mexer com você, se aqueles ricos exibidos quiserem te maltratar, não esqueça de me ligar, filha, estou avisando."
"Mas espera, se lá eu vou ter que estudar com adolescentes ricos e exibidos, porque eu estou indo?" — Miley arqueou as sobrancelhas, como se não soubesse o que pensar naquele momento.
"Filha, não reclama." — sua tia bufou — "Olha, você tem que crescer. O preço nós temos que pagar, temos que pagar pra ser alguém. Você tem que sair dessa cidade, querida, você é muito mais do que uma cabeleireira." — ela acariciou o rosto de Miley com doçura e a deu mais um abraço, que confortou as duas naquele momento. Ela a amava como sua própria filha e faria de tudo por ela, sem medidas — "Minha filha..."
"Miley!" — as duas se separaram ao ouvir uma voz e uma mulher entrando no salão, batendo os pés e parecia irritada. Tinha cabelos castanhos claros e olhos azuis. A mãe de Miley — "Você vai lá em casa se despedir da sua irmã ou vai embora direto daqui?" — perguntou ela com desdém.
"Não, claro que eu vou me despedir da Emily, mãe. Aliás, sem a sua permissão eu não vou a nenhum lugar." — Miley falou desanimada e saiu em seguida.
"O que está olhando? Gostou da cor de cabelo que eu estou usando? Gostou? Posso pintar o seu de graça?" — disse a tia de Miley com desdém, a olhando com desprezo.
"Agora que conseguiu separar a minha filha da mãe dela deve estar contente, não é, Abigail?" — as duas se encaravam com ódio nos olhos, um ódio antigo.
"Se quiser que eu diga a verdade... Sim." — Abigail deu um sorriso cínico.
"O que ganha tirando a minha filha de casa? Fala!"
"Ganho nada. Vou sentir muito mais saudade do que você. Mas sabe quem vai ganhar? A própria Miley."
A mãe da garota balançou a cabeça, parecia indignada. Parecia não querer ouvir nada que saísse da boca de Abigail.
"Não vê que eu preciso dela?" — ela trincou os dentes — "Porque encheu a cabeça dela de merda, porque?"
"Porque ela tem direito!" — gritou Abigail, se aproximando da mulher — "Ela tem o direito de ter a cabeça cheia de sonhos, ela tem o direito de ter uma história diferente, a história não pode se repetir, tem que ser diferente de você e de mim!"
"Ah claro!" — a mulher soltou uma risada irônica — "Desde que não levem ela pra onde levaram você também... Tomara que a minha filha não seja uma prostituta como a tia dela foi." — olhou com nojo para Abigail, que revirou os olhos.
"Não. Ela não vai ser prostituta, eu tenho certeza. Mas sabe de uma coisa? Não vai ser a enfermeira da irmã dela a vida toda!"
"Sabe perfeitamente que ela ama a irmã dela..."
"Mas é claro que ela ama! A menina gosta dela, mas você é a mãe dela, ela não é a mãe dela e tem que cuidar dela! É seu direito e sua obrigação, ENTENDA!"
Casa de Miley
Califórnia
"Oi." — sussurrou Miley ao ver Emily tentando subir os degraus da escada. A menina com síndrome de down segurava um telefone de brinquedo, e parecia não ter ideia da onde estava indo.
"Ainda faltam alguns degraus." — disse Emily, apontando para a escada. Miley deu um sorriso fraco e se sentou na escada, pegando um caderno meio surrado.
"Aqui nesse livrinho eu vou escrever tudo que acontece comigo. Pra que quando eu for ver você eu possa ler tudo, como se estivesse lendo uma historinha." — falou ela enquanto Emily se sentava ao seu lado.
"Ok." — a menininha abraçou Miley, parecendo agarrar cada pedacinho dela — "Porque, Miley? Porque?"
Miley sentiu um aperto no coração e se segurou para não começar a chorar.
"Eu vou sentir muito a sua falta..." — disse com voz abargada — "Mas você e eu sempre vamos estar juntas." — beijou a testa de Emily — "A minha tia me prometeu que vai te pentear todos os dias. E vai te deixar mais bonita do que se eu estivesse com você." — ela sorriu e se virou para Emily — "Ela vai pintar suas unhas também."
"É... As unhas?" — disse a menina, maravilhada.
"Pois é..." — Miley riu — "Me dá um beijo." — Emily logo beijou seu rosto e Miley a abraçou, sentindo cada parte da irmã. Em seguida, pegou na mão de Emily e foram para o quarto, se sentando em cima das duas camas de solteiro no quarto pequeno, pegando uma caixa que estava no chão — "Agora você vai ser a responsável, vai cuidar de todos os nosso brinquedos, ta bom? Você promete?" — Emily apenas assentiu, começando a remexer nas coisas da caixa — "Eu não quero te deixar..." — uma lágrima começava a querer sair dos olhos de Miley — "Mas eu tenho que ir."
"Porque?" — perguntou Emily inocentemente.
"Porque eu quero ser uma grande médica pra poder cuidar de outras crianças como você." — acariciou os cabelos de Emily. Enxugou algumas lágrimas que escaparam e pegou um retrato na cabeceira — "Olha, eu tenho essa foto de nós duas. Olha como estamos bonitas."
"Você tá mais bonita." — Emily apontou para Miley na foto.
"Você também está linda..." — a voz de Miley começava a falhar — "Olha, eu vou ficar com uma foto igualzinha essa e você vai ficar com essa, pra poder lembrar de mim."
"De mim..." — Emily parecia "viajar".
"Eu já sei que vai lembrar de mim, eu também vou lembrar de você..." — Emily soltou uma risada e Miley chorou ainda mais — "Eu prometo que quando eu voltar eu nunca mais vou deixar você sozinha... Ok? Você acredita? Eu nunca mais vou deixar você. Quando eu acabar a escola eu vou voltar pra ficar com você, eu prometo. Eu te amo!" — abraçou Emily, com lágrimas.
Centro Médico Chapon Hill
Nova York
"Me disseram que você estava bem, mas não tão bem." — riu Jacob enquanto entrava no quarto de Joe.
"Eu estou bem." — Joe riu, se levantando da cama — "Nenhum arranhão. O que acha?"
"Super legal." — Jacob riu.
"E o carro?"
"Ah, cara, o seguro vai pagar."
"E o que sua mãe disse?"
"Minha mãe nem veio me ver. Ela só falou comigo por telefone e o meu pai disse que eu era um homem muito idiota. E minha mãe disse que graças a mim tinha perdido o carro." — deu de ombros.
"Ah, mas se não voltaram das férias é porque está tudo bem."
"Não, está tudo mal, eu vou ficar sem a minha mesada por 1 ano." — Jacob bufou.
"Irmão, eu estou aqui pra te ajudar." — Joe sorriu, colocando sua mão no ombro de Jacob — "E aí, o que vai fazer?"
"Eu não sei." — suspirou, dando de ombros — "E aí, como está o seu pai? Como ele está, não falou com ele?"
"Ainda não." — suspirou — "Mas garanto que vai me dar a maior bronca."
"E você está assustado?"
"Pior que to." — Joe balançou a cabeça.
"Ah, sei lá, Joe, quem sabe ele também não paga sua mesada por 1 ano inteiro igual o meu..."
"Não. Olha, essa ele não me perdoa."
"Tudo bem. De repente ele não quer te ver por 10 anos e quando voltar ele vai estar velhinho demais pra se lembrar de todas as merdas que nós fizemos." — Jacob deu de ombros. Joe gargalhou.
"Que bom que você veio." — Joe sorriu, abraçando o amigo.
"Ah, você sabe que mora no meu coração." — os dois riram e foram caminhando devagar até a porta do quarto.
"Já estava cansado de fingir que dormia pra não falar com a minha mãe." — Joe suspirou.
"Deve estar tudo bem, cara..."
"Joe!"
Os dois se viraram ao ver o secretário Collins ali parado, com uma cara carrancuda e séria. Joe sentiu arrepios na espinha na mesma hora e quis morrer. Não queria falar com o pai tão cedo, muito menos ali, com plateia. Michael lançou um olhar furtivo para Jacob. O garoto entendeu e só disse um "Boa tarde" baixo antes de sair.
"Oi, pai." — sussurrou Joe.
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